23.6.09
Questão de classe
Ouçam a nossa voz!
22/06/2009
Nós, professoras e professores da Escola Estadual de Ensino Fundamental Porto Alegre, localizada em Porto Alegre, Morro Santana, que atendemos 800 alunos – em sua grande maioria carentes – da educação infantil à oitava série do ensino fundamental, resolvemos abrir nosso coração e dividir com vocês algumas coisas que muito têm nos incomodado com relação aos (des) caminhos da Educação do RS.
Através deste documento, gostaríamos de tornar públicos nossos sentimentos em relação às mudanças que estão sendo veiculadas sobre nosso Plano de Carreira. Essas mudanças, do nosso ponto de vista, não têm por objetivo a melhoria da Educação Pública do RS, e sim, de transformar a escola em uma empresa. O objetivo de uma empresa é gerar lucros. O objetivo de uma escola pública é gerar cidadãos conscientes, capazes de interferir em suas realidades para transformar o mundo em um local mais fraterno, justo e humano. Isso não pode ser medido com números e índices de pesquisas.
Queremos manifestar nossa indignação não apenas com nosso baixo salário, pois este fato já é bastante conhecido do público em geral. Estamos indignados com a falta de respeito com que somos tratados por este governo, representado pela Secretária de Educação do RS e seus cargos de confiança. Em reuniões, jornais, televisão, rádio, eventos, etc, somos achincalhados, humilhados, chamados de acomodados, de preguiçosos, de estagnados, somos mostrados como “um peso” no orçamento estadual, nossas aulas são chamadas de “medíocres”, nossa formação é colocada como insuficiente. Em entrevista para a imprensa, a secretária declarou que “merecemos apanhar dos alunos” simplesmente pelo fato de reclamarmos nossos direitos cada vez que sentimos que eles estão sendo atacados e por sermos uma categoria organizada. Há anos lutamos pela Educação. É graças ao nosso esforço – e somente a ele – que o Rio Grande do Sul ainda tem os melhores índices de Educação do país.
Enquanto o governo corta investimentos em educação, descumprindo a lei de aplicar 35% do orçamento do Estado em Educação Pública, nós continuamos acreditando no aluno e trabalhando.
Nossa escola mantém projetos como: “Navegar é preciso, nas ondas da Língua Portuguesa”, um projeto interdisciplinar sobre a Reforma Ortográfica. Desde 2000, realizamos atividades dentro do “Projeto Consciência Negra” durante todo o último trimestre. Há anos mantemos o projeto “Idade Média na História, na Literatura e no cinema”, e “Mitos e Heróis Gregos”. Este ano, estamos organizando o projeto “Educando para a Cidadania”, envolvendo os professores de Ensino Religioso. Temos diversos projetos na Educação Infantil e anos iniciais. As fotos e os projetos na íntegra estão em nosso blog (http://escolaportoalegre.blogspot.com) .
Sempre mantivemos reuniões pedagógicas, atendimento aos pais, gincanas culturais e esportivas, passeios culturais e de lazer, palestras e oficinas para a comunidade entre outras atividades. Investimos na apresentação e auto-estima dos alunos, promovendo recolhimento de roupas e calçados, livros paradidáticos, material escolar. Fazemos questão de organizar as formaturas dos alunos da Educação Infantil e da oitava série, celebrando-as como momentos únicos e um ritos de passagem fundamentais em nossa escola. Com todo esse trabalho e investimento pessoal do corpo docente, percebemos a mudança de postura e o crescimento de nossos alunos como pessoas e cidadãos.
Não gostaríamos de perder todas essas conquistas históricas e as vitórias que já alcançamos com nossa comunidade. Em nossa escola, temos uma marca muito forte de profissionalismo e compromisso. Buscamos formação permanentemente, levamos a sério nossas reuniões e projetos, vemos nosso papel como central na comunidade onde estamos inseridos. Porém, ultimamente, esse sentimento vem mudando... Nosso dia-a-dia tem sido tomado por colegas desestimulados, entristecidos, precarizados, buscando advogados para garantir seus direitos mínimos. Nunca ouvimos tanto a palavra “exoneração”, “cansaço”, “doença”, “dores”. Há colegas buscando ânimo até em medicamentos, travando uma luta pessoal contra o próprio desânimo e baixa auto-estima.
Pedimos sua ajuda para que esta situação não se torne ainda mais grave. Queremos ser ouvidos e respeitados, pois a grande maioria de vocês, nossos interlocutores, passou pela escola pública como educandos ou como educadores.
Pedimos que divulguem esse documento, repassem, deem sugestões e nos ajudem a encontrar saídas, lutando ao nosso lado.
ASSINADO: Professores da Escola de Ensino Fundamental Porto Alegre
Texto encontrado em: http://www.diariogauche.blogspot.com/
11.4.09
A desregulamentação é anti-liberal
O liberalismo não me traz desconfort0. Ele é o pai de todas as correntes políticas e econômicas modernas. Mesmo a idéia de desregulamentação do liberalismo radical é aceitável. O que trava na minha garganta é a defesa dessa desregulamentação num contexto de monopólio de muitos campos da economia por algumas poucas empresas. Retirar as limitações das grandes corporações econômicas é abrir a jaula dos leões. A defesa do liberalismo radical é razoável para aqueles que estão sob a tutela ou a serviço dos Gerdau ou dos Marinho. Do contrário, pode ser um ato estúpido. As pequenas e médias empresas correm perigo de serem engolidas ou perderem para uma concorrência desleal. Mais ainda, novas empresas ou iniciativas de grupos locais ficam fadadas ao sufocamento. Como montar uma rádio, por exemplo, com o controle das telecomunicações por meia dúzia de empresas midiáticas que obtiveram concessões públicas. Vou me arriscar a dizer que a desregulamentação, num contexto de monopolização de muitos setores da economia por poucos grupos, ainda mais num momento de crise, é uma atitude anti-liberal. Hoje, o que resta a maioria dos profissionais é ter que se empregar como funcionário dessas grandes empresas e se submeter a suas políticas. Que o digam os jornalistas e atores. Se o poderio destas mega-empresas é bastante limitador, mesmo com o controle existente do Estado, como seria se não existisse dito controle. A desregulamentação é o caminho da servidão.
9.4.09
Fé
Economia é religião. A liberdade de mercado quebrou o mundo financeiro. O Estado teve de intervir para restabelecer a economia. E, apesar de todas as evidências, os liberais não perderam a fé nas leis de mercado. Contra fé não há evidências.
28.3.09
O escrachado na história
No link a seguir, a aula de um professor gravada por um aluno. Possivelmente, num cursinho pré-vestibular.
Clique Aqui. O vídeo está no youtube.
O uso do humor, do deboche e da ironia na escrita da história são um deleite para o leitor ou ouvinte. Quem já leu Gilberto Freyre ou os escritos históricos de Marx ou Nietzsche entende o que estou dizendo. Contemporaneamente, por questões comerciais, os professores de cursinho pré-vestibular têm usado deste gênero narrativo para tornar suas aulas agradáveis. O professor de cursinho virou uma espécie de showman para vender seu produto: isso é o efeito do imperativo de mercado. A princípio, não há mal algum nisso, desde que os objetivos do ensinar história não sejam prejudicados. Objetivos estes que são, a meu ver, os de trabalhar conceitos históricos e historicizados e o de criar e refinar o sentido histórico, tal como o descreveu Frederico Nietzsche no seu livro Gaia Ciência, dos participantes da aula.
Vamos à aula do vídeo em questão. O professor é engraçado. Os alunos riem. O assunto da aula é a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Na boca do professor, todos os tópicos referentes a dita participação são motivos de deboche. A atuação da equipe médica no sul da França. A não atuação dos aviões brasileiros. O ataque, ou suposto ataque, de um submarino alemão. Pode-se até pensar que o professor tenha passado do ponto do deboche e chegado ao do escrachamento. Nas palavras dele: "Patético".
Eu ainda não havia feito leitura alguma sobre a participação brasileira na guerra. Por isso, recorri a Wikipedia. Encontrei este artigo aqui. Ao fim do mesmo, há uma relação de obras e outros endereços na rede sobre o assunto. Levanto algumas considerações.
Primeiro, em termos de factualidade, há alguns pontos que o artigo entrou em certo choque com a narrativa do professor. Os bandeides ao qual o professor se referiu foram, segundo o artigo, um socorro aos franceses atingidos pela gripe espanhola. Houve o ataque de um submarino alemão, segundo o artigo. E mesmo que não tivesse acontecido ataque algum, imagine-se a situação. Um monte de brasileiros, saídos de um país tropical, que talvez nunca houvesse pegado em arma, se vê em meio a uma Europa em guerra, correndo o perigo de assédio de submarino alemão. Qualquer movimentação estranha em água poderia ser sinal de perigo. Ou não? Se sim, se não, o que fazer?
Segundo, uma questão epistemológica. A narrativa histórica pretende, em último ponto, averiguar a veracidade de um enunciado ou indicativo histórico. Enunciado ou indício baseados em uma rede provas documentais. Assim, o historiador deve elaborar enunciados significativos ou apresentar indícios a partir da análise de fontes ou da citação e crítica de literatura secundária que já tenha trabalhado com fontes primárias. E o que fez o professor do vídeo senão ignorar essa pré-condição da disciplina histórica e cair no campo do julgamento moral. Para o professor, todos os militares engajados foram patéticos. Aviadores, médicos, soldados rasos, comandantes. Entrando no campo da moral acaba-se com a possibilidade de tentar entender o real-passado. Não houve questões táticas, apenas patetice.
Terceiro, uma questão moral. Putz! Imagina o soldado que lá estava, em plena Europa, quem sabe com frio, quem sabe com fome. Possivelmente, se perguntando o porquê de estar arriscando a vida por uma causa que não era sua. E aí, um professor de história simplesmente diz: patético! Isso é falta de respeito, pô!
Os professores de cursinho têm essa dificuldade diante de si, causada pelo imperativo de mercado: encontrar a linha que separa o humor e a ironia do escrachamento. Isso é muito difícil, principalmente com um público jovem ávido por diversão. Principalmente, devido a tremenda concorrência existente entre os professores nos estabelecimento de cursos pré-vestibulares. Aí que entra a questão para o professor, de se vender ou não ao sistema. Preparar boas aulas, quem sabe até divertidas, sem usar em clichês ou bobagens, ou apelar para imagens escrachadas e não-historicizadas por achar estas as melhores armas no jogo competitivo do mercado. O profissional ético não pode cair na tentação de se deixar levar pelo marketing à qualquer custo.
É um tom muito moralista o meu. Eu sei. Mas é uma pré-requisito profissional mínimo. Tem que ser comentado, explicitado. Se um dia meterem o dedo na minha cara por eu ter incorrido nesse tipo de prática e eu responder, simplesmente, "é a vida!", saibam que eu já virei um cínico. E que perdi o profissionalismo.
Clique Aqui. O vídeo está no youtube.
O uso do humor, do deboche e da ironia na escrita da história são um deleite para o leitor ou ouvinte. Quem já leu Gilberto Freyre ou os escritos históricos de Marx ou Nietzsche entende o que estou dizendo. Contemporaneamente, por questões comerciais, os professores de cursinho pré-vestibular têm usado deste gênero narrativo para tornar suas aulas agradáveis. O professor de cursinho virou uma espécie de showman para vender seu produto: isso é o efeito do imperativo de mercado. A princípio, não há mal algum nisso, desde que os objetivos do ensinar história não sejam prejudicados. Objetivos estes que são, a meu ver, os de trabalhar conceitos históricos e historicizados e o de criar e refinar o sentido histórico, tal como o descreveu Frederico Nietzsche no seu livro Gaia Ciência, dos participantes da aula.
Vamos à aula do vídeo em questão. O professor é engraçado. Os alunos riem. O assunto da aula é a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Na boca do professor, todos os tópicos referentes a dita participação são motivos de deboche. A atuação da equipe médica no sul da França. A não atuação dos aviões brasileiros. O ataque, ou suposto ataque, de um submarino alemão. Pode-se até pensar que o professor tenha passado do ponto do deboche e chegado ao do escrachamento. Nas palavras dele: "Patético".
Eu ainda não havia feito leitura alguma sobre a participação brasileira na guerra. Por isso, recorri a Wikipedia. Encontrei este artigo aqui. Ao fim do mesmo, há uma relação de obras e outros endereços na rede sobre o assunto. Levanto algumas considerações.
Primeiro, em termos de factualidade, há alguns pontos que o artigo entrou em certo choque com a narrativa do professor. Os bandeides ao qual o professor se referiu foram, segundo o artigo, um socorro aos franceses atingidos pela gripe espanhola. Houve o ataque de um submarino alemão, segundo o artigo. E mesmo que não tivesse acontecido ataque algum, imagine-se a situação. Um monte de brasileiros, saídos de um país tropical, que talvez nunca houvesse pegado em arma, se vê em meio a uma Europa em guerra, correndo o perigo de assédio de submarino alemão. Qualquer movimentação estranha em água poderia ser sinal de perigo. Ou não? Se sim, se não, o que fazer?
Segundo, uma questão epistemológica. A narrativa histórica pretende, em último ponto, averiguar a veracidade de um enunciado ou indicativo histórico. Enunciado ou indício baseados em uma rede provas documentais. Assim, o historiador deve elaborar enunciados significativos ou apresentar indícios a partir da análise de fontes ou da citação e crítica de literatura secundária que já tenha trabalhado com fontes primárias. E o que fez o professor do vídeo senão ignorar essa pré-condição da disciplina histórica e cair no campo do julgamento moral. Para o professor, todos os militares engajados foram patéticos. Aviadores, médicos, soldados rasos, comandantes. Entrando no campo da moral acaba-se com a possibilidade de tentar entender o real-passado. Não houve questões táticas, apenas patetice.
Terceiro, uma questão moral. Putz! Imagina o soldado que lá estava, em plena Europa, quem sabe com frio, quem sabe com fome. Possivelmente, se perguntando o porquê de estar arriscando a vida por uma causa que não era sua. E aí, um professor de história simplesmente diz: patético! Isso é falta de respeito, pô!
Os professores de cursinho têm essa dificuldade diante de si, causada pelo imperativo de mercado: encontrar a linha que separa o humor e a ironia do escrachamento. Isso é muito difícil, principalmente com um público jovem ávido por diversão. Principalmente, devido a tremenda concorrência existente entre os professores nos estabelecimento de cursos pré-vestibulares. Aí que entra a questão para o professor, de se vender ou não ao sistema. Preparar boas aulas, quem sabe até divertidas, sem usar em clichês ou bobagens, ou apelar para imagens escrachadas e não-historicizadas por achar estas as melhores armas no jogo competitivo do mercado. O profissional ético não pode cair na tentação de se deixar levar pelo marketing à qualquer custo.
É um tom muito moralista o meu. Eu sei. Mas é uma pré-requisito profissional mínimo. Tem que ser comentado, explicitado. Se um dia meterem o dedo na minha cara por eu ter incorrido nesse tipo de prática e eu responder, simplesmente, "é a vida!", saibam que eu já virei um cínico. E que perdi o profissionalismo.
13.11.08
Mais um puxão de orelha do tio niet na fase positivista
A fé na embriaguez - Os seres de instantes sublimes e arrebatados, que habitualmente, por contraste e devido à própria dissipação de suas forças nervosas, sentem-se miseráveis e inconsolávis, vêem aqueles instantes como o autêntico "Eu", como "si"; e por isso pensam no seu ambiente, sua época, todo o seu mundo, com sentiments de vingança. A embriaguez é a verdadeira vida para eles, o genuíno Eu: em todo o resto vêem adversários e estorvadores da embriaguez, seja esta de natureza moral, intelectual, religiosa ou artística. A estes entusiásticos ébrios a humanidade deve muita coisa ruim: eles são infatigáveis semeadores da insatisfação consigo e com o próximo, do desprezo pela época e o mundo e, sobretudo, do cansaço do mundo. Todo um inferno de criminosos talvez não produzisse este inquietante e prolongado efeito opressivo, corruptor de ar e terra, como faz essa pequena e nobre comunidade de desenfreados, fantasistas e semidoidos, de gênios que não podem controlar-se, e que experimentam prazer consigo apenas quando se perdem totalmente: enquanto o criminoso, com freqüência, dá prova de excelente autodomínio, de abnegação e prudência, e sabe manter esses atributos naqueles que o temem. O céu acima da vida talvez se torne perigoso e sombrio por causa dele, mas o ar permance robusto e severo. - Além de tudo, esses entusiastas propagam a fé na embriaguez, com todas as suas forças, como no que há de vida na vida: uma crença terrível! Tal como agora os selvagens são rapidamente corrompidos e arruinados pela "água ardente", a humanidade como um todo foi corrompida, lenta e radicalmente, pelas aguardentes espirituais dos sentimentos inebriantes, e por aqueles que mantiveram vivo o anseio por eles: talvez ela ainda venha a se arruinar com isso.
(Nietzsche, Frederico. Aurora. Aforismo 50. São Paulo: Companhia das Letras, p. 44s.)
(Nietzsche, Frederico. Aurora. Aforismo 50. São Paulo: Companhia das Letras, p. 44s.)
7.11.08
Ditos memoráveis de Leonardo Vigolo
Sim... diminuir riscos, esse é o lema,
sobre a prova de Antropologia e minha preguiça acadêmica.
Uma melancolia regada à asa,
sobre o ambiente do metrô, em São Paulo.
Um cover brasileiro de uma coisa babaca,
sobre High School Music Brasil
sobre a prova de Antropologia e minha preguiça acadêmica.
Uma melancolia regada à asa,
sobre o ambiente do metrô, em São Paulo.
Um cover brasileiro de uma coisa babaca,
sobre High School Music Brasil
3.11.08
A revelação histórica
No século XVIII, havia a Real Feitoria de Linho-Cânhamo em São Leopoldo, na então Capitania do Rio Grande de São Pedro! A produção de linho-cânhamo era empresa "estatal"!! Mas não deu certo: parece que a escravaria queimou toda a produção!!! Até a última ponta!!!!
30.9.08
Entrevista do Silvio e do Vesgo com o Quico
21.9.08
20.9.08
Sobre o 20 de Setembro
Para ser sincero, nunca me incomodei muito com o tradicionalismo gaúcho. Esse gosto por andar de fantasia de gaúcho ou prenda pelas ruas da nossa urbe durante a semana farroupiha ou bailes dos CTG's; o discurso separacionista; o orgulho das virtudes meridionais em relação ao norte do país, isto é, tudo que está para cima de SC. Até gosto desses hábitos quando aparacem cenas risíveis, como a dos peões de apartamento que vão laçar bezerro nos CTG's. Tudo bem, né? Parece ser bem legal fazer parte de uma tradição inventada na década de 1930, no máximo.
Agora, não consigo tolerar de maneira alguma, em ponto nenhum, aquela musiquinha de nanar chamada Hino Sul-Riograndense. Nem preciso dizer o porquê. Já é do conhecimento de quase todos leitores deste blog - que, por sinal, são poucos... - seu significado mais latente: a glorificação de um dito passado heróico e moral de um povo diferenciado. E botam a criançada para aprender a cantar essa cantiga.
Cara, seria engraçadíssimo se não fosse nossa verdade. Se tudo isso fosse só mais uma historieta antiga de historiador. Mas não é. Aos alunos do ensino fundamental e médio obrigam perder 20 minutos diários para cantá-lo, além dos milhares de trabalhinhos obrigatórios nos quais se devem escrever o texto de cabo a rabo, ao longo dos mais 12 anos escolares. Inclusive nas aulas de educação física, deixava-se de correr ou jogar bola pra copiar esse hineto registrado na contracapa dos livros didáticos.
Caralho! Além de se referir à essa luta entre frações da elite como luta pela liberdade, ainda designa toda população escravizada como sem virtudes. Isto é, bem mais de um terço da população nacional, além de estar na condição de escravizada, ainda por cima não é digna nem de ser tomada enquanto possivelmente moral. É perfeitamente compreensível a produção do texto do hino. Foi escrito em 1935, em ocasião do centenário da Revolta Farroupilha, e adotado pelo Instituto Histórico Geográfico. Essa galera do IHGB, historiadores amadores e muito importantes em termos historiográficos, defensores das idéias raciais e evolutivas próprias de seu tempo.Segundo estes autores, haviam raças distintas e algumas eram mais puras e graduadas que outras. Convém lembrar, o nacional-socialismo do Hitler tomou o poder na Alemanha em 1933. Para aquela época, é compreensível que se pense isso. Mas hoje, num momento em que a situação desfavorável do negro é alvo de críticas e observações cada vez mais pertinentes, cantar o hino ou fazê-lo soar nos diversos espaços, sejam públicos ou privados, me parece, sem tirar nem pôr, uma prática racista. Tão desagradável quanto parte das músicas racistas e homofóbicas da geral do Grêmio.
Querem cantar. Cantem! Só fico imaginando o que pensam os patriótas quando me nego a tomar parte na cantoria.
Agora, não consigo tolerar de maneira alguma, em ponto nenhum, aquela musiquinha de nanar chamada Hino Sul-Riograndense. Nem preciso dizer o porquê. Já é do conhecimento de quase todos leitores deste blog - que, por sinal, são poucos... - seu significado mais latente: a glorificação de um dito passado heróico e moral de um povo diferenciado. E botam a criançada para aprender a cantar essa cantiga.
Cara, seria engraçadíssimo se não fosse nossa verdade. Se tudo isso fosse só mais uma historieta antiga de historiador. Mas não é. Aos alunos do ensino fundamental e médio obrigam perder 20 minutos diários para cantá-lo, além dos milhares de trabalhinhos obrigatórios nos quais se devem escrever o texto de cabo a rabo, ao longo dos mais 12 anos escolares. Inclusive nas aulas de educação física, deixava-se de correr ou jogar bola pra copiar esse hineto registrado na contracapa dos livros didáticos.
Caralho! Além de se referir à essa luta entre frações da elite como luta pela liberdade, ainda designa toda população escravizada como sem virtudes. Isto é, bem mais de um terço da população nacional, além de estar na condição de escravizada, ainda por cima não é digna nem de ser tomada enquanto possivelmente moral. É perfeitamente compreensível a produção do texto do hino. Foi escrito em 1935, em ocasião do centenário da Revolta Farroupilha, e adotado pelo Instituto Histórico Geográfico. Essa galera do IHGB, historiadores amadores e muito importantes em termos historiográficos, defensores das idéias raciais e evolutivas próprias de seu tempo.Segundo estes autores, haviam raças distintas e algumas eram mais puras e graduadas que outras. Convém lembrar, o nacional-socialismo do Hitler tomou o poder na Alemanha em 1933. Para aquela época, é compreensível que se pense isso. Mas hoje, num momento em que a situação desfavorável do negro é alvo de críticas e observações cada vez mais pertinentes, cantar o hino ou fazê-lo soar nos diversos espaços, sejam públicos ou privados, me parece, sem tirar nem pôr, uma prática racista. Tão desagradável quanto parte das músicas racistas e homofóbicas da geral do Grêmio.
Querem cantar. Cantem! Só fico imaginando o que pensam os patriótas quando me nego a tomar parte na cantoria.
2.9.08
Latifundiários, peões, Expointer e RBS
O axioma do Frantz Fanon, também dito pelo Paulo Freire, é sempre bom repetir: o dominado defende a ideologia do dominador.
No Jornal do Almoço dos dois últimos dias, vimos a reportagem sobre a ação do Ministério do Trabalho em proibir os peões de dormir junto aos animais, durante a Expointer. Foi ressaltado na reportagem a tristeza destes trabalhadores, em se verem impedidos de dar boa continuidade aos seus trabalhos. Foram mostradas algumas cenas, da estima dedicada por estes trabalhadores do campo aos animais, das jantas baseadas a boa churrascada e do clima de devoção total à lida do campo. Algo comovente. E não estou sendo sarcástico nem debochado. Algo do tipo: "maldito Estado que se intromete nas livres relações entre os homens".
Até que minha mãe fez seus comentários, enquanto eu apenas mastigava minha comida e ruminava pensamentos senis anti-mídia corporativos. Ela vem do interior, então conhece um pouco da situação. Segunda ela, esses trabalhadores ganham uma miséria, dormem pouco pra caralho, trabalham um monte e só vêem aquela churrascada na boca dos latifundiário donos dos bichos. E, por mais que pareça um paradoxo, ainda defendem os caras. Mas não é de graça.
É certo que boa parte destes trabalhadores deve se emputiar com o trabalho e a situação. Eu sei por conhecimento empírico, pois tenho parentes no interior, como já havia dito. Lá, Legislação Trabalhista é utopia. A galera trabalha o dia todo, do raiar a baixar do sol, sem arrego. Então, pra quem vive todo dia essa situção, uma semana de Expointer não é nada.
Bom, quanto à imprensa corporativa, não quero falar nada. Já está todo mundo cansado de saber do que eu iria falar. A construção da "verdade" é uma questão bem séria. Além disso, a ligação dessa emissora com os poderes instituídos é bem conhecida, especificamente com os poderes provindos do campo. Um exemplo, o cara do Anonymus Gourmet, que é neto do velho Pinheiro Machado, não por acaso nome de uma boa quantidade de ruas no Estado.
E os liberais ainda vêm chamar a Globo de comunista.
Mas chega de blábláblá anti-qualquer coisa. Temos mais o que se fazer do que ficar pensando na rbs
No Jornal do Almoço dos dois últimos dias, vimos a reportagem sobre a ação do Ministério do Trabalho em proibir os peões de dormir junto aos animais, durante a Expointer. Foi ressaltado na reportagem a tristeza destes trabalhadores, em se verem impedidos de dar boa continuidade aos seus trabalhos. Foram mostradas algumas cenas, da estima dedicada por estes trabalhadores do campo aos animais, das jantas baseadas a boa churrascada e do clima de devoção total à lida do campo. Algo comovente. E não estou sendo sarcástico nem debochado. Algo do tipo: "maldito Estado que se intromete nas livres relações entre os homens".
Até que minha mãe fez seus comentários, enquanto eu apenas mastigava minha comida e ruminava pensamentos senis anti-mídia corporativos. Ela vem do interior, então conhece um pouco da situação. Segunda ela, esses trabalhadores ganham uma miséria, dormem pouco pra caralho, trabalham um monte e só vêem aquela churrascada na boca dos latifundiário donos dos bichos. E, por mais que pareça um paradoxo, ainda defendem os caras. Mas não é de graça.
É certo que boa parte destes trabalhadores deve se emputiar com o trabalho e a situação. Eu sei por conhecimento empírico, pois tenho parentes no interior, como já havia dito. Lá, Legislação Trabalhista é utopia. A galera trabalha o dia todo, do raiar a baixar do sol, sem arrego. Então, pra quem vive todo dia essa situção, uma semana de Expointer não é nada.
Bom, quanto à imprensa corporativa, não quero falar nada. Já está todo mundo cansado de saber do que eu iria falar. A construção da "verdade" é uma questão bem séria. Além disso, a ligação dessa emissora com os poderes instituídos é bem conhecida, especificamente com os poderes provindos do campo. Um exemplo, o cara do Anonymus Gourmet, que é neto do velho Pinheiro Machado, não por acaso nome de uma boa quantidade de ruas no Estado.
E os liberais ainda vêm chamar a Globo de comunista.
Mas chega de blábláblá anti-qualquer coisa. Temos mais o que se fazer do que ficar pensando na rbs
26.8.08
Como o vovô niet já dizia
"O homem de uma era de dissolução e de mestiçagem confusa, que leva no corpo uma herança de ascendência múltipla, isto é, impulsos e escalas de valor mais que contraditórios, que lutam entre si e raramente se dão trégua - esse homem das culturas tardias e das luzes veladas será, por via de regra, um homem bem fraco: sua aspiração mais profunda é que um dia tenha fim a guerra que ele é; a felicidade lhe parece, de acordo com uma medicina e maneira de pensar tranqülizante (epicúrea ou cristã, por exemplo), sobretudo a felicidade do repouso, da não-perturbação, da saciedade, da unidade enfim alcançada, ou "sabá dos sabás", para dizer como o santo retor Agostinho, ele mesmo um desses homens. - Mas se numa tal natureza a contradição e a guerra atuam como uma atração e estímulo de vida mais -, e se, além dos seus impulsos fortes e inconciliáveis, também foi herdada e cultivada uma autêntica mestria e sutileza na guerra consigo, ou seja, no autodomínio e engano de si: então surgem esses homens espantosamente incompreensíveis e inimagináveis, esses enigmas predestinados à vitória e à sedução, cujos mais belos exemplos são Alcíbiades e César (-aos quais eu gostaria de juntar o primeiro europeu a meu gosto, Frederico II de Hohenstaufen), e, entre os artistas, talvez Leonardo da Vinci. Eles surgem precisamente nas épocas em que avulta aquele tipo mais fraco, que aspira ao repouso: os dois tipos estão relacionados e se originam das mesmas causas."
(Nietzsche, Frederico. Além do Bem e do Mal. Aforismo 200. São Paulo: Companhia das Letras, p. 86s.)
(Nietzsche, Frederico. Além do Bem e do Mal. Aforismo 200. São Paulo: Companhia das Letras, p. 86s.)
9.8.08
9.6.08
Sempre mais do mesmo
Não vou dizer que não fiquei contente com essa história da Yeda. Óbvio. Mas... sempre a mesma história. "Ah, o grupo do governo foi pego com a mão na massa"; "combate à corrupção" e tantos outros uivos democráticos. Isso cansa!
Porra, todo mundo faz isso! Melhor: nosso sistema democrático representativo precisa de corrupção para poder funcionar. Isso quase todo o mundo sabe. Para o presidente passar uma lei no Congresso - que é composto, em sua maior parte, pela oposição - é obrigatório comprar as pintas. Não estou apontando ser isso o correto, mas é o instituído. Todo mundo, ao entrar no jogo, precisa se adequar às regras. Caso contrário, só uma revolução pra resolver. E esse não é o caso do Brasil. Pelo menos por enquanto.
Ouvir o Lasier Martins, um dos mais destacados cavaleiros contra-corrupção desta Província de São Pedro, é bucha!É sempre o mesmo papo... e as pessoas, repetindo as mesmas indignações de sempre, permanecem (como eu) com uma tremenda sensação de impotência. O sistema político institucional é um caso perdido. Tá, temos os partidos de esquerda com uma proposta mais progressista, mas esses caras reforçam sempre que o único caminho é o institucional, espaço vedado às pessoas fora dos partidos. A proposta da esquerda, ao meu ver, não muda muito a situação, já que o eleitorado permanece sempre em sua postura passiva, de se mexer só na hora das eleições ou na hora de passeata organizada pelo partido.
No meu pensamento mais idealizado, tirado de exemplos dados por outras realidades, é a organização espontânea e local o caminho mais adequado para dar outro andamento à relação de forças. Organizações locais, com instrumentalização jurídica ou mesmo paramilitar, dependendo da situação, com objetivos primeiros de caráter pontual. Depois, a articulação destes diferentes movimentos em rede, em que o espaço político institucional passa a ser apenas mais um entre os muitos campos de luta possíveis. Esse, se não estou enganado, é o caso boliviano.
Para encerrar: sim, apesar do exposto, votarei para o pt para as próximas eleições para governo do estado. Voto útil, contra possíveis políticas de liberalização do estado, como as da atual fubanga governadora. Segunda coisa, acho que tinha que ter ensino de legislação no colégio.
Porra, todo mundo faz isso! Melhor: nosso sistema democrático representativo precisa de corrupção para poder funcionar. Isso quase todo o mundo sabe. Para o presidente passar uma lei no Congresso - que é composto, em sua maior parte, pela oposição - é obrigatório comprar as pintas. Não estou apontando ser isso o correto, mas é o instituído. Todo mundo, ao entrar no jogo, precisa se adequar às regras. Caso contrário, só uma revolução pra resolver. E esse não é o caso do Brasil. Pelo menos por enquanto.
Ouvir o Lasier Martins, um dos mais destacados cavaleiros contra-corrupção desta Província de São Pedro, é bucha!É sempre o mesmo papo... e as pessoas, repetindo as mesmas indignações de sempre, permanecem (como eu) com uma tremenda sensação de impotência. O sistema político institucional é um caso perdido. Tá, temos os partidos de esquerda com uma proposta mais progressista, mas esses caras reforçam sempre que o único caminho é o institucional, espaço vedado às pessoas fora dos partidos. A proposta da esquerda, ao meu ver, não muda muito a situação, já que o eleitorado permanece sempre em sua postura passiva, de se mexer só na hora das eleições ou na hora de passeata organizada pelo partido.
No meu pensamento mais idealizado, tirado de exemplos dados por outras realidades, é a organização espontânea e local o caminho mais adequado para dar outro andamento à relação de forças. Organizações locais, com instrumentalização jurídica ou mesmo paramilitar, dependendo da situação, com objetivos primeiros de caráter pontual. Depois, a articulação destes diferentes movimentos em rede, em que o espaço político institucional passa a ser apenas mais um entre os muitos campos de luta possíveis. Esse, se não estou enganado, é o caso boliviano.
Para encerrar: sim, apesar do exposto, votarei para o pt para as próximas eleições para governo do estado. Voto útil, contra possíveis políticas de liberalização do estado, como as da atual fubanga governadora. Segunda coisa, acho que tinha que ter ensino de legislação no colégio.
21.5.08
13.5.08
Toma cuidado, Lu!
Canção de um pastor de cabras teocrítico
Eís-me deitado, doente do intestino -
Os percevejos me devoram.
Lá adiante ainda há luzes e barulhos!
Escuto-os dançarem...
Ela queria, a esta hora,
Escapar até onde estou.
Espero como um cão -
Não vejo sinal dela.
E o sinal-da-cruz quando prometeu?
Como podia ela mentir?
- Ou corre atrás de qualquer um,
Como fizeram minhas cabras?
Onde arranjou o vestido de seda?
Ah, minha orgulhosa!
Haverá outros bodes ainda
Nesse bosque?
- Como torna confuso e envenenado
A espera amorosa!
Assim brota, na noite abafada,
O cogumelo venenoso.
Amor me consome
Como sete males -
Não tenho apetite para nada
Adeus, minhas cebolinhas!
A lua já se pôs no mar,
Cansadas já estão as estrelas,
Cinzento nasce o dia -
Eu bem que morreria.
(Frederico Nietzsche. A Gaia Ciência. Apêndice: Canções do príncipe Vogelfrei. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 302s)
11.5.08
Trabalho numa repartição pública. Especificamente no setor do arquivo. É muito papel inutilizado. E mesmo, muito papel por mim inutilizado. Parece que tudo que sei sobre a situação rural, social e ecológica do Rio Grande do Sul com o empreendimento das multinacionais do papel não significa nada. Bom, alguma coisa significa, mas não tudo que deveria.
Abaixo, mais uma parte de um texto do Movimento dos Atingidos por Barragens. Clique no excerto para ter acesso ao todo.
Segundo o professor de Biologia, Dr. Paulo Brank, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mais de 90% da celulose das três gigantes multinacionais Stora Enzo, Aracruz, Votorantin, será pasta para celulose para exportação. “O papel será feito no primeiro mundo e as terras esgotadas e a poluição ficarão por aqui. O capital internacional viu que as terras aqui são baratas, as pessoas estão largando suas lidas no campo para arrendar ou vender suas terras”, afrima Brank. O projeto das três empresas é de plantar mais de 1 milhão de hectares de monoculturas de árvores exóticas para alimentar o crescimento infinito do consumo de papel. Brank acredita que se for diminuído o consumo de papel, o que a terra agradeceria, as empresas vão faturar menos e que estas monoculturas estão gerando o aumento do êxodo rural e a insustentabilidade financeira do agricultor ou pecuarista no Uruguai, Chile, Brasil.
Abaixo, mais uma parte de um texto do Movimento dos Atingidos por Barragens. Clique no excerto para ter acesso ao todo.
Segundo o professor de Biologia, Dr. Paulo Brank, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mais de 90% da celulose das três gigantes multinacionais Stora Enzo, Aracruz, Votorantin, será pasta para celulose para exportação. “O papel será feito no primeiro mundo e as terras esgotadas e a poluição ficarão por aqui. O capital internacional viu que as terras aqui são baratas, as pessoas estão largando suas lidas no campo para arrendar ou vender suas terras”, afrima Brank. O projeto das três empresas é de plantar mais de 1 milhão de hectares de monoculturas de árvores exóticas para alimentar o crescimento infinito do consumo de papel. Brank acredita que se for diminuído o consumo de papel, o que a terra agradeceria, as empresas vão faturar menos e que estas monoculturas estão gerando o aumento do êxodo rural e a insustentabilidade financeira do agricultor ou pecuarista no Uruguai, Chile, Brasil.
4.5.08
Cotas
O que eu entendo por raça?
Raça são ônibus cheios de gente majoritariamente negra ou majoritariamente branca. Basta pegar o Menino Deus e depois o Restinga ou o Campo Novo, lá pelas sete horas. O projeto de urbanização de Porto Alegre denota divisão racial.
A população "branca" tem maior tempo de escolaridade que a "negra" e "parda". Tá lá nos estudos do IPEA. É só conferir. Me lembro da propaganda do Banrisul. Só tinha uma negra. Bastante clara. Ao fundo da imagem, onde ela estava, até parecia branca.
O embaixador Alberto da Costa e Silva, um dos maiores entendedores da África no Brasil, diz que não sabemos o quanto temos de africanidade. E o currículo de história da UFRGS só tem cadeiras eletivas de história da África. Quem estuda a situação do negro no Brasil, só sob a ótica do escravo. Só as negociações. Donde essa gente vem parece não ter valor para a narrativa histórica. Não tenho os dados exatos, mas parece que 90% da população estudantil das universidades federais é branca. Vejo ainda poucos negros no Campus do Vale, onde ficam boa parte dos cursos. Raça, pra mim, é isso. Política, história, costumes, economia, educação. Olha que nem falei do público das prisões. Olha que nem falei do medo que tenho quando vejo pessoas trajadas como "manos" se aproximando de mim na noite, pelas ruas do centro e Cidade Baixa. Quero dizer, raça são imaginários sociais também.
Há gente a chamar o Brasil de país racista. Ao mesmo tempo, muitos destes negam a existência de raças. E como vai haver racismo sem haver raças? No sentido biológico, certamente não existe. Mas olha um pouco de tv. Nesta, o mundo parece que é todo branco. Raça é economia, raça é imaginário, raça é estética, raça são políticas de segurança.
Muitos acham racismo a estipulação de cotas raciais. Mas o sistema meritocrático, quase sem querer, também não é racializado? Mérito de filhos de funcionários públicos, médicos, engenheiros. Isso não é contestado por quem contesta as cotas. Fica-se com o "temos que melhorar o sistema de ensino do povo". Mas quem luta pelas cotas não disse o contrário. Nesse ponto há concordância.
A questão das cotas, para mim, não é tanto educacional. É profissional. Ao nível universitário, os formandos são em geral provenientes de classes mais abastadas. Acredito eu, predominantemente brancos. Pois bem, me pergunto se um arquiteto vindo deste grupo socio-econômico vai ter a vontade de entender as especificidades da ocupação territorial e da habitação guarani, que não são semelhantes a nossa. Ou se um médico, trabalhando num posto da periferia, vai ter a sensibilidade para entender e atender a uma mulher negra que recém transou com seu homem e apareceu para consulta sem tomar banho. Este foi um caso contado por uma amiga minha. Ela apenas culpou a mulher pela sua falta de educação. Será que ela estava apta para entender essa mulher? Será que, nesse caso, ela estava apta para atendê-la? Eu imagino que um profissional originado da periferia, alguém que conheça a situação de seus vizinhos, terá maiores condições de entender e atender nos postos das periferias da nossa cidade. Assim como um nutricionista kaingang terá melhores condições para intervir junto aos seus.
As cotas me parecem uma questão muito prática.
Sua implementação é complicadíssima. Seus mecanismos são muito sensíveis. Identidades são coisas tão instáveis, tão difíceis de se determinar.
Os debates também são complicadíssimos. Em geral, se joga com informações hipotéticas. Como no caso deste texto, em alguns momentos. "Os cotistas terão notas baixas". "Os cotistas não terão condições de se manter financeiramente". Essas são questões importantes, as quais devem estar nos cálculos da comissão de implementação das cotas. Mas acredito que não devem impedir a tentativa de implantação.E dizer que quem é contra as cotas é racista também não é certo. Melhor, é uma estupidez.
Este texto é muito apologético. Deve ser combatido. Deve ser deslegitimado, principalmente pelo pouco caso do autor em construí-lo com maior cuidado. Tudo que é fraco dever ser atacado e desmontado.E os pontos francos das cotas devem ser atacados. Só assim poderá ter maiores condições de se manter.
Raça são ônibus cheios de gente majoritariamente negra ou majoritariamente branca. Basta pegar o Menino Deus e depois o Restinga ou o Campo Novo, lá pelas sete horas. O projeto de urbanização de Porto Alegre denota divisão racial.
A população "branca" tem maior tempo de escolaridade que a "negra" e "parda". Tá lá nos estudos do IPEA. É só conferir. Me lembro da propaganda do Banrisul. Só tinha uma negra. Bastante clara. Ao fundo da imagem, onde ela estava, até parecia branca.
O embaixador Alberto da Costa e Silva, um dos maiores entendedores da África no Brasil, diz que não sabemos o quanto temos de africanidade. E o currículo de história da UFRGS só tem cadeiras eletivas de história da África. Quem estuda a situação do negro no Brasil, só sob a ótica do escravo. Só as negociações. Donde essa gente vem parece não ter valor para a narrativa histórica. Não tenho os dados exatos, mas parece que 90% da população estudantil das universidades federais é branca. Vejo ainda poucos negros no Campus do Vale, onde ficam boa parte dos cursos. Raça, pra mim, é isso. Política, história, costumes, economia, educação. Olha que nem falei do público das prisões. Olha que nem falei do medo que tenho quando vejo pessoas trajadas como "manos" se aproximando de mim na noite, pelas ruas do centro e Cidade Baixa. Quero dizer, raça são imaginários sociais também.
Há gente a chamar o Brasil de país racista. Ao mesmo tempo, muitos destes negam a existência de raças. E como vai haver racismo sem haver raças? No sentido biológico, certamente não existe. Mas olha um pouco de tv. Nesta, o mundo parece que é todo branco. Raça é economia, raça é imaginário, raça é estética, raça são políticas de segurança.
Muitos acham racismo a estipulação de cotas raciais. Mas o sistema meritocrático, quase sem querer, também não é racializado? Mérito de filhos de funcionários públicos, médicos, engenheiros. Isso não é contestado por quem contesta as cotas. Fica-se com o "temos que melhorar o sistema de ensino do povo". Mas quem luta pelas cotas não disse o contrário. Nesse ponto há concordância.
A questão das cotas, para mim, não é tanto educacional. É profissional. Ao nível universitário, os formandos são em geral provenientes de classes mais abastadas. Acredito eu, predominantemente brancos. Pois bem, me pergunto se um arquiteto vindo deste grupo socio-econômico vai ter a vontade de entender as especificidades da ocupação territorial e da habitação guarani, que não são semelhantes a nossa. Ou se um médico, trabalhando num posto da periferia, vai ter a sensibilidade para entender e atender a uma mulher negra que recém transou com seu homem e apareceu para consulta sem tomar banho. Este foi um caso contado por uma amiga minha. Ela apenas culpou a mulher pela sua falta de educação. Será que ela estava apta para entender essa mulher? Será que, nesse caso, ela estava apta para atendê-la? Eu imagino que um profissional originado da periferia, alguém que conheça a situação de seus vizinhos, terá maiores condições de entender e atender nos postos das periferias da nossa cidade. Assim como um nutricionista kaingang terá melhores condições para intervir junto aos seus.
As cotas me parecem uma questão muito prática.
Sua implementação é complicadíssima. Seus mecanismos são muito sensíveis. Identidades são coisas tão instáveis, tão difíceis de se determinar.
Os debates também são complicadíssimos. Em geral, se joga com informações hipotéticas. Como no caso deste texto, em alguns momentos. "Os cotistas terão notas baixas". "Os cotistas não terão condições de se manter financeiramente". Essas são questões importantes, as quais devem estar nos cálculos da comissão de implementação das cotas. Mas acredito que não devem impedir a tentativa de implantação.E dizer que quem é contra as cotas é racista também não é certo. Melhor, é uma estupidez.
Este texto é muito apologético. Deve ser combatido. Deve ser deslegitimado, principalmente pelo pouco caso do autor em construí-lo com maior cuidado. Tudo que é fraco dever ser atacado e desmontado.E os pontos francos das cotas devem ser atacados. Só assim poderá ter maiores condições de se manter.
25.3.08
Texto muito interessante sobre o modelo energético brasileiro, aqui, encontrado no endereço do Movimento dos Atingidos por Barragem.
22.3.08
19.3.08
O incansável Super-Homem, em sua nova missão...
Os últimos cinco anos da ação estadunidense "Iraque Livre" renderam algo entre 100.000 e 1,2 milhão de assassinatos de civis, de acordo com uma reportagem no Le Monde, aqui (a foto acima, incusive, se encontra nessa página). Os números são confusos, mas as fontes referidas na notícia têm em comum o fato de apresentarem altas cifras. O Iraq Body Count, grupo de pesquisa britânica, sugere que os EUA mataram quatro vezes mais civis do que rebeldes nos dois primeiros anos de guerra; a OMS no Iraque, em pesquisa realizada em 2007, ressaltou que 151.000 iraquianos foram assassinados de maneira violenta nos três primeiros anos de invasão americana, número duas vezes maior que a dos dois últimos anos do regime de S. Hussein; a revista médica britânica The Lancet estimou, em pesquisa ralizada em 2006, que cerca de 2,5% de uma população de 26 milhões sofreu morte violênta.Essas missões de paz dão medo...
18.3.08
Blog Pé na África
Descobri um blog da Folha OnLine, o Pé na África, de autoria de Fabio Zanini, que trata, como se pode prever, de relações inter-étnicas. Vale a pena conferir a triste matéria do dia 18/03.
15.3.08
Manifesto das Mulheres da Via Campesina
Vale a pena dar uma conferida no Manifesto das Mulheres da Via Campesina, aqui, as quais fizeram um protesto esses dias contra plantações de eucaliptos ali pela região da fronteira.
14.3.08
Tô num momento não muito propício pra escrever. Por isso, prefiro só divulgar sites e blogs. Encontrei mais dois endereços de notícias, quais sejam, o Word Socialist Web Site, em português, e o Últimas Notícias. Bom, boas leituras!
7.3.08
Terrorismo internacional
Excelente artigo de Noam Chomsky sobre o terrorismo internacional praticado, segundo ele, pelos três maiores maiores terroristas do mundo: os EUA, a Inglaterra e Israel, aqui.
Eís uma palinha:
Ocorre, na verdade, que eles [os EUA e Israel] e seus apologistas olham para os africanos sentindo o que nós sentiríamos ao esmagar uma formiga quando caminhamos pela rua. Somos conscientes de que é possível que ocorra (se nos incomodarmos em pensar sobre isso), mas não queremos matá-las, porque não são dignas nem dessa consideração. Não é necessário dizer que ataques similares perpetrados por araboushim em áreas habitadas por seres humanos seriam considerados de maneira muito diferente. Se por um momento fôssemos capazes de adotar a perspectiva do mundo, poderíamos nos perguntar quem são os criminosos “mais procurados no mundo inteiro”.
Eís uma palinha:
Ocorre, na verdade, que eles [os EUA e Israel] e seus apologistas olham para os africanos sentindo o que nós sentiríamos ao esmagar uma formiga quando caminhamos pela rua. Somos conscientes de que é possível que ocorra (se nos incomodarmos em pensar sobre isso), mas não queremos matá-las, porque não são dignas nem dessa consideração. Não é necessário dizer que ataques similares perpetrados por araboushim em áreas habitadas por seres humanos seriam considerados de maneira muito diferente. Se por um momento fôssemos capazes de adotar a perspectiva do mundo, poderíamos nos perguntar quem são os criminosos “mais procurados no mundo inteiro”.
29.2.08
Kenya, informação, perspectiva, limitação e descoberta
Parece haver possibilidade de diminuir a tensão no Kenya, de acordo com esta notícia aqui, do Libération. Os dois protagonistas do confronto, os presidentes dos partidos rivais, assinaram um acordo, sob a supervisão de Kofi Annan, tendo como principal medida a criação do cargo de primeiro ministro, coisa até então inexistente no campo institucional kenyano.
Olha, sinceramente, esse tipo de política não me interessa. Meu foco de interesse, na real, ficou para a última linha da notícia: o saldo da crise pós-eleitoral é de 1.500 mortos e 300.000 "deslocados". Caralho! Três Maracanas lotados longe de suas casas e a única marca disso na notícia são números... tá, eu sei, têm muitas notícias tratando da situação das populações mas, se notarmos, boa parte do jogo informacional ao qual estamos habituados tem por foco essa mesma relação entre políticos, empresários, atores e companhia limitada. Para ver os grupos subalternos, só na página policial e, evidentemente, nos classificados . É o velho padrão ao qual talvez nem tenhamos noção de sua existência. O migrante, o desclassificado, o ilegal, o desaparecido, são todos exotismos, coisas interessantes, notícias relâmpagos: nunca são a situação estrutural, o estruturante!
Penso na formação no minha faculdade: quais foram as oportunidades ali encontradas para se poder entender o mundo pós-colonial, dito terceiro mundista, senão com ferramentas retiradas de autores que nunca saíram da Europa. Mesmo autores do Brasil e da América Latina, muito pouco é aqui conhecido. E o que resta? Resta só o esforço político de ir atrás de autores fundamentais latino-americanos, asiáticos e africanos, aprender inglês na marra e fazer tentativas de pôr novas perspectivas em circulação.
Nossos padrões mentais, intelectuais, são tão fechados, tão quadrados, tão moldados, que a idéia de tentar perceber o desconhecido debaixo do nosso nariz soa estranha. Mas há um sinal demontrativo dessa limitação: quando achamos desnecessário conhecer o desconhecido, quando achamos não haver desconhecido necessário, sejam autores, sejam fatos, sejam perspectivas, então estamos realmente de acordo com a situação das coisas, quero dizer, com a nossa situaçã de miopia crônica. E o que resta?
Olha, sinceramente, esse tipo de política não me interessa. Meu foco de interesse, na real, ficou para a última linha da notícia: o saldo da crise pós-eleitoral é de 1.500 mortos e 300.000 "deslocados". Caralho! Três Maracanas lotados longe de suas casas e a única marca disso na notícia são números... tá, eu sei, têm muitas notícias tratando da situação das populações mas, se notarmos, boa parte do jogo informacional ao qual estamos habituados tem por foco essa mesma relação entre políticos, empresários, atores e companhia limitada. Para ver os grupos subalternos, só na página policial e, evidentemente, nos classificados . É o velho padrão ao qual talvez nem tenhamos noção de sua existência. O migrante, o desclassificado, o ilegal, o desaparecido, são todos exotismos, coisas interessantes, notícias relâmpagos: nunca são a situação estrutural, o estruturante!
Penso na formação no minha faculdade: quais foram as oportunidades ali encontradas para se poder entender o mundo pós-colonial, dito terceiro mundista, senão com ferramentas retiradas de autores que nunca saíram da Europa. Mesmo autores do Brasil e da América Latina, muito pouco é aqui conhecido. E o que resta? Resta só o esforço político de ir atrás de autores fundamentais latino-americanos, asiáticos e africanos, aprender inglês na marra e fazer tentativas de pôr novas perspectivas em circulação.
Nossos padrões mentais, intelectuais, são tão fechados, tão quadrados, tão moldados, que a idéia de tentar perceber o desconhecido debaixo do nosso nariz soa estranha. Mas há um sinal demontrativo dessa limitação: quando achamos desnecessário conhecer o desconhecido, quando achamos não haver desconhecido necessário, sejam autores, sejam fatos, sejam perspectivas, então estamos realmente de acordo com a situação das coisas, quero dizer, com a nossa situaçã de miopia crônica. E o que resta?
22.2.08
Caos no Kenya
Vídeo encontrado no The Guardian sobre a situaçã lá no Kenya, aqui. Apesar de ser em inglês, vale a pena dar uma olhada.
20.2.08
O caminhos das flores
Coçou o saco, ajeitou a camisa, deu uma última olhada no espelho e partiu. O mesmo caminho. O de sempre, desde os últimos seis meses. Conhecia todos os atalhos. Em vez de descer do ônibus na parada onde desce a maioria das pessoas, puxou a campainha uma antes para tomar um caminho mais curto; seguiu para o estacionamento, com carros e chão de paralelepipedo, com a pressa de quem está meio atrasado. Depois de entrar no prédio, tomou o elevador, não sem antes ficar alguns instantes angustiantes na fila do elevador. Como sempre chegou uns dez minutos antes do exigido, arfando um pouco, não muito a vontade consigo.
Fica a questão: qual a porra de princípios norteadores da escolha desse rapaz? A princípio, parece ser a de tentar, o máximo possível, optimizar o tempo, fazendo qualquer atividade com o menor gasto possível; outro, parece ser o de tomar o caminho menor, princípio que não deixa de estar ligado ao anterior mas, ainda assim, possuí vida própria.
Pois bem, e se esse pusilâme tomasse outros princípios norteadores. Vejamos:
Acordou. Apertou o "soneca" do celular e voltou a dormir. Acordou dez minutos mais tarde, para levantar só cinco minutos depois. Sentou no sofá, com um copo de leite com café na mão, curtindo um som. Arrumou-se ligeiro, sem ter tempo para escovar os dentes. Pegou o ônibus. Atrasado. Mas tinha um porquê: uma boa companhia de viagem... Desceu com ela na parada onde desce a maioria. Seguiu por um caminho o qual sabia ser o mais comprido, com uns canteiros com flores simpáticas... e outro jardizinho também, em frente a um bar, com uma flores a tomar café. Entranto no prédio, tomou as escadas, por detestar filas e por querer fazer pelo menos algum exercício físico no dia. Chegou um pouco atrasado, mas nada de mais. Ficou a pensar na possibilidade de convidar sua companhia de viagem pr'uma ceva depois do expediente de ambos.
Fica a derradeira questão: o que vale mais a pena: o útil ou o bom? Há também uma pergunta decorrente desta, ou talvez até anterior: será que o útil implica algo bom?
Fica a questão: qual a porra de princípios norteadores da escolha desse rapaz? A princípio, parece ser a de tentar, o máximo possível, optimizar o tempo, fazendo qualquer atividade com o menor gasto possível; outro, parece ser o de tomar o caminho menor, princípio que não deixa de estar ligado ao anterior mas, ainda assim, possuí vida própria.
Pois bem, e se esse pusilâme tomasse outros princípios norteadores. Vejamos:
Acordou. Apertou o "soneca" do celular e voltou a dormir. Acordou dez minutos mais tarde, para levantar só cinco minutos depois. Sentou no sofá, com um copo de leite com café na mão, curtindo um som. Arrumou-se ligeiro, sem ter tempo para escovar os dentes. Pegou o ônibus. Atrasado. Mas tinha um porquê: uma boa companhia de viagem... Desceu com ela na parada onde desce a maioria. Seguiu por um caminho o qual sabia ser o mais comprido, com uns canteiros com flores simpáticas... e outro jardizinho também, em frente a um bar, com uma flores a tomar café. Entranto no prédio, tomou as escadas, por detestar filas e por querer fazer pelo menos algum exercício físico no dia. Chegou um pouco atrasado, mas nada de mais. Ficou a pensar na possibilidade de convidar sua companhia de viagem pr'uma ceva depois do expediente de ambos.
Fica a derradeira questão: o que vale mais a pena: o útil ou o bom? Há também uma pergunta decorrente desta, ou talvez até anterior: será que o útil implica algo bom?
14.2.08
Mídia corporativa X Lulinha
Ótimo texto sobre o jogo da mídia corporativa contra o governo Lula: Eles não desistem, no Cão Uivador. Não que eu defenda o governo, mas a ação da Globo e cia. é tosca e mal intencionada, para variar um pouco.
16.1.08
Demo cracias...
enquanto eu rio da nossa democracia, tem sangue e fogo rolando no Quênia, segundo o Mídia Independente: Situação no Kenya. Se é fato ou não, só o tempo vai dizer, mas vale a pena dar uma conferida. Não é de se ficar bem...
13.1.08
Para o Ano Novo
Eu ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho de viver, pois ainda tenho de pensar. Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano, me veio primeiramente ao coração – que pensamento deverá ser para mim razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diga Sim!
(Nietzsche. A Gaia Ciência. Companhia das Letras, 2001. Aforismo 276.)
(Nietzsche. A Gaia Ciência. Companhia das Letras, 2001. Aforismo 276.)
27.12.07
Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou no sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer
Ou se é fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!
Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.
Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto - eu, que as vou comer a ambas?
(Fernando Pessoa. Poesia completa de Alberto Caeiro. Companhia do Bolso, 2006, p. 129)
Falou outra vez comigo.
Falou no sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer
Ou se é fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!
Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.
Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto - eu, que as vou comer a ambas?
(Fernando Pessoa. Poesia completa de Alberto Caeiro. Companhia do Bolso, 2006, p. 129)
20.12.07
Eu X Eu X Eu
Há uma confusão de eu's na mesma pessoa. Uma série de propostas, desejos, métodos e morais diferenciados, às vezes até antagônicas, convive conflituosamente na mesma pessoa. Ao final, à superfície se apresenta a moral, o desejo, a vontade vitoriosa.
E apenas uma deve ser dominante, restando às outras o esgueirar-se pelas ruelas mal iluminadas da psiquê, esperando o momento oportuno para pôr em xeque a "proposta" dominante. A personalidade é uma guerra. Uma guerra de posições diferenciadas, emergidas numa dada situação e em formação constante, com momentos de trégua, situações de aliança, as quais nada podem fazer contra a lógica do "sistema": apenas um pode dominar a superfície. Os indivíduos mais inconstantes, mais vacilantes, mais claudicantes - mais "fraquinhos" -, são os viventes de crises de "personalidade": não tem certeza das próprias sensações, das próprias morais, das próprias vontades, no fim das contas, das próprias decisões.
Há momentos da vida nos quais não se pode pensar muito, a resposta deve ser rápida e a decisão, mantida até segunda ordem. Senão, as conseqüências geradas pela inconsistência e pela indecisão são as mais danosas, as mais insuportáveis. Uma decisão, quando anconrada numa decisão firme, numa moral específica, deve ser mantida até segunda ordem, carregando todos os possíveis empecilhos como adereços da fantasia. Os adereços pesam, podem machucar, mas sem eles a fantasia não é tão bela. A escolha pela beleza pode chegar a ser, mesmo, uma escolha pela "insanidade". Mas a "insanidade" pode ser a racionalidade de quem vê a mesma coisa por outro ângulo ou, até, de quem descobre alguma coisa... nova.
E apenas uma deve ser dominante, restando às outras o esgueirar-se pelas ruelas mal iluminadas da psiquê, esperando o momento oportuno para pôr em xeque a "proposta" dominante. A personalidade é uma guerra. Uma guerra de posições diferenciadas, emergidas numa dada situação e em formação constante, com momentos de trégua, situações de aliança, as quais nada podem fazer contra a lógica do "sistema": apenas um pode dominar a superfície. Os indivíduos mais inconstantes, mais vacilantes, mais claudicantes - mais "fraquinhos" -, são os viventes de crises de "personalidade": não tem certeza das próprias sensações, das próprias morais, das próprias vontades, no fim das contas, das próprias decisões.
Há momentos da vida nos quais não se pode pensar muito, a resposta deve ser rápida e a decisão, mantida até segunda ordem. Senão, as conseqüências geradas pela inconsistência e pela indecisão são as mais danosas, as mais insuportáveis. Uma decisão, quando anconrada numa decisão firme, numa moral específica, deve ser mantida até segunda ordem, carregando todos os possíveis empecilhos como adereços da fantasia. Os adereços pesam, podem machucar, mas sem eles a fantasia não é tão bela. A escolha pela beleza pode chegar a ser, mesmo, uma escolha pela "insanidade". Mas a "insanidade" pode ser a racionalidade de quem vê a mesma coisa por outro ângulo ou, até, de quem descobre alguma coisa... nova.
17.12.07
Um dia a mais ou um dia a menos?
Atucanado com o fim do trabalho, levantou os olhos para ver o restante da tarefa. Nada difícil, mas não agüentava mais. Seu humor no serviço variava bastante: ou estava muito emputecido, ou, no mínimo, só estava de saco cheio. Ao levantar os olhos, cuidou para não ficar ofuscado com a luz do sol, manejando o boné de forma a dar sombra à fronte. O trabalho já estava bastante adiantado, faltavam apenas uns 30 metros de cano para alojar e o piche para recobrir o chão. O calor era de lascar, mas nada que o costume não ensinasse a suportar.
Terminadas as atividades, riu um pouco com os colegas e dirigiu-se, junto aos mesmos, para um bar próximo. Já um pouco bêbado, voltou para casa, onde encontrou mulher, filha e mesa posta. Comeu, discutiu mais um pouco com a mulher pelos gastos no bar, se re-entendeu com ela na cama e, depois de um leve sorriso no escuro, sentiu como a vida é boa. Nem mais se lembrava do amanhã, que seria o mesmo dia de ontem.
Terminadas as atividades, riu um pouco com os colegas e dirigiu-se, junto aos mesmos, para um bar próximo. Já um pouco bêbado, voltou para casa, onde encontrou mulher, filha e mesa posta. Comeu, discutiu mais um pouco com a mulher pelos gastos no bar, se re-entendeu com ela na cama e, depois de um leve sorriso no escuro, sentiu como a vida é boa. Nem mais se lembrava do amanhã, que seria o mesmo dia de ontem.
14.12.07
O que a globo não fala sobre a reforma constitucional venezuelana
3.12.07
Ótima descoberta de blog, pertencente a um amigo meu, o Bruno Ortiz Monllor (sim, este é o nome do blog)
29.11.07
Duvido mesmo?
A arrogância interminável dos leitores de intelectuais franceses, ingleses e alemães, ou mesmo anglo-indianos ou franco-argelinos, não tem limites. Melhor, não tem noção. Melhor, não temos noção. Os bancos de universidade, os colchões ortopedicamente projetados, as obras primas das ciências sociais e da literatura "universal" em edições belíssimas (e caríssimas) são suficientes para entender o palpável, as coisas tais como são? Ou então, para designar o que é melhor para o mundo? Duvido de mim mesmo. Melhor, duvido que consiga duvidar de mim mesmo.
Arrogante arrogante arrogante
Nos achamos como Jesus na cruz: "Eles não sabem o que fazem!".E eu, será que sei? Será que sei de mim, para depois falar do outro?
Mas uma certeza percorre toda essa inquietação: toda falta de dúvida sobre si mesmo indica uma conivência com o engano - auto-engano.
Arrogante arrogante arrogante
Nos achamos como Jesus na cruz: "Eles não sabem o que fazem!".E eu, será que sei? Será que sei de mim, para depois falar do outro?
Mas uma certeza percorre toda essa inquietação: toda falta de dúvida sobre si mesmo indica uma conivência com o engano - auto-engano.
26.11.07
19.11.07
Estrelinha estrelinha
"Ah, estrela bonita, és minha irmã!".
Sentado na grama, contemplando o céu, o rapaz concentrava sua atenção numa estrela fulgurante. Brilhava esta multi-colorida, diferente das outras: ora era vermelha, ora esverdeada, ora amarela, ora todas as cores juntas.
"É um espetáculo lindo de se ver essa estrela", pensou consigo. "Estrela amiga, a beleza de tua luz renova minh'alma! Eu, até agora fraco, sinto-me revigorado pela pureza de tua chama... obrigado, estrela irmã!
_____
Há dois bilhões de anos, uma guerra fatricida no planeta dos macacos ocasionou uma crise no sistema solar. A típica mistura de sede de sangue, medo, tecnologia ultra-avançada e palavras de baixo calão provocou a destruição do sol, centro deste sistema. Foram necessários dois bilhões de anos-luz para a luz dessa explosão chegar à Terra.
_____
Nota astronômica: quando estrelas brilham com diversas cores significa que já explodiram.
...
Sentado na grama, contemplando o céu, o rapaz concentrava sua atenção numa estrela fulgurante. Brilhava esta multi-colorida, diferente das outras: ora era vermelha, ora esverdeada, ora amarela, ora todas as cores juntas.
"É um espetáculo lindo de se ver essa estrela", pensou consigo. "Estrela amiga, a beleza de tua luz renova minh'alma! Eu, até agora fraco, sinto-me revigorado pela pureza de tua chama... obrigado, estrela irmã!
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Há dois bilhões de anos, uma guerra fatricida no planeta dos macacos ocasionou uma crise no sistema solar. A típica mistura de sede de sangue, medo, tecnologia ultra-avançada e palavras de baixo calão provocou a destruição do sol, centro deste sistema. Foram necessários dois bilhões de anos-luz para a luz dessa explosão chegar à Terra.
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Nota astronômica: quando estrelas brilham com diversas cores significa que já explodiram.
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12.11.07
Uma palinha da entrevista de Noam Chomsky à revista Cult
CULT - O senhor considera que a humanidade vive atualmente um otimismo inconseqüente? O senhor acredita em algum argumento básico, que pode fazer com que os desatentos reflitam sobre o estado atual da política internacional e das questões relativas à natureza como o aquecimento global, sem parecer apologia do pessimismo? É possível reletir hoje sem usar esse termo?
Noam Chomsky - Não apenas acho que é possível, sei que é possível, por experiência e pela história. Todos nós sabemos. Confrontar o poder, a repressão e a injustiça nunca foi fácil, mas muitas tarefas foram realizadas e o sucesso não foi pequeno. As lutas de muitos anos nos deixaram um legado de liberdade que é raro em padrões históricos comparativos. Podemos optar por usar esse legado para carregar a luta para a frente ou podemos decidir abandonar a esperança, acreditando que o pior vai acontecer. Essa escolha é comum no decorrer da história. Felizmente, muitas pessoas não abandonaram a esperança, e não há razão para fazê-lo hoje.
(Revista Cult, ano 10, número 16, p. 10)
Noam Chomsky - Não apenas acho que é possível, sei que é possível, por experiência e pela história. Todos nós sabemos. Confrontar o poder, a repressão e a injustiça nunca foi fácil, mas muitas tarefas foram realizadas e o sucesso não foi pequeno. As lutas de muitos anos nos deixaram um legado de liberdade que é raro em padrões históricos comparativos. Podemos optar por usar esse legado para carregar a luta para a frente ou podemos decidir abandonar a esperança, acreditando que o pior vai acontecer. Essa escolha é comum no decorrer da história. Felizmente, muitas pessoas não abandonaram a esperança, e não há razão para fazê-lo hoje.
(Revista Cult, ano 10, número 16, p. 10)
1.11.07
Brasil 2014 e saúde pública
Dizem que conhecer "verdade" é um passo pro sofrimento e que o melhor é ser ignorante. E é verdade. É verdade se se considerar que a nossa opinião e o conhecimento apreendido vão fazer diferença. Se o que acabo de conhecer e a minha opinião não vão mudar nada da realidade, para que me preocupar?
Eu defendo instintivamente: é melhor saber que não saber, pois assim temos maior quantidade de informações para pautar nossas escolhas. Talvez isso não garanta sucesso nem felicidade, mas garante, quem sabe, um aumento no horizonte.
Disse toda essa bobajada só para divulgar os seguintes textos: o primeiro é sobre a copa de 2014, do blog Cataclisma 14; o segundo é sobre a Emenda 29 sobre saúde pública, encontrada no CMI.
Eu defendo instintivamente: é melhor saber que não saber, pois assim temos maior quantidade de informações para pautar nossas escolhas. Talvez isso não garanta sucesso nem felicidade, mas garante, quem sabe, um aumento no horizonte.
Disse toda essa bobajada só para divulgar os seguintes textos: o primeiro é sobre a copa de 2014, do blog Cataclisma 14; o segundo é sobre a Emenda 29 sobre saúde pública, encontrada no CMI.
29.10.07
Sobre as eleições para o Diretório Acadêmico da História da UFRGS
Mais uma disputa pelo CHIST. Alguns ficaram simplesmente loucos com o curso das coisas. O que deveria articular o pessoal acaba servindo para criar rixas, algumas pessoais, inclusive. Talvez se possa chamar isso de apropriação de um sistema vigente e a produção de um sistema muito próximo ao que aos poucos se extingue - algo próximo a revitalização de um sistema de D.A. tosco.
Eu não entendo. Se todos os lados querem tomar parte, numa relação horizontal entre os que estão juntos, defender uma forma democrática, então, para que fazer chapas e disputar eleições? Não é mais fácil todo mundo se juntar em cículo e decidir o que fazer?
As únicas coisas que me vêm em mente são: 1 - defende-se eleições e chapas porque elas garantem ao vencedor a centralidade da organização; 2 - com os votos, os quais garantem a legitimidade do sistema, o partido vencedor pode se dizer representante legítimo do curso e, assim, levantar as bandeiras que quiser "em nome dos/ representando os estudantes todos".
Essas eleições, para mim, são antidemocráticas e não favoressem a formação da autonomia dos participantes.
Eu não entendo. Se todos os lados querem tomar parte, numa relação horizontal entre os que estão juntos, defender uma forma democrática, então, para que fazer chapas e disputar eleições? Não é mais fácil todo mundo se juntar em cículo e decidir o que fazer?
As únicas coisas que me vêm em mente são: 1 - defende-se eleições e chapas porque elas garantem ao vencedor a centralidade da organização; 2 - com os votos, os quais garantem a legitimidade do sistema, o partido vencedor pode se dizer representante legítimo do curso e, assim, levantar as bandeiras que quiser "em nome dos/ representando os estudantes todos".
Essas eleições, para mim, são antidemocráticas e não favoressem a formação da autonomia dos participantes.
26.10.07
Aberta a temporada de leilões de cérebros e consciências
Ruy Guimarães
Professor de História
Diretor da E.E.E.M. Padre Reus
Professor de História
Diretor da E.E.E.M. Padre Reus
A educação pública estadual do Rio Grande do Sul iniciou o ano letivo de 2007 sob mau tempo. A investida do governo Yeda sobre as escolas através da Secretaria de Educação desmontando setores fundamentais como Supervisões Escolares, Orientações Educacionais, Bibliotecas e Laboratórios, bem como projetos extra-muros, tudo com o pretexto declarado de colocar professoras e professores que atuavam nessas funções nas salas de aulas. A argumentação política da senhora secretária era que havia muitos profissionais em desvio de função e/ou diretoras e diretores “escondendo” professores. Apesar dos protestos dos trabalhadores em educação, das comunidades e do coletivo de diretoras e diretores de escolas de Porto Alegre, não houve alteração nessa política e muitas direções de escolas amedrontadas e algumas até de forma consciente, cumpriram as determinações da mantenedora. Resultado: os estudantes receberam nas salas de aulas muitos professores que cumpriam suas atividades e bem nos setores fechados pela secretaria porque não tinham mais condições de saúde para ministrarem aulas. Muitos desses profissionais entraram com laudos médicos. Ou seja, nem houve economia financeira, nem se solucionou a falta de recursos humanos. Por outro lado, muitos dos que permaneceram nas escolas oferecem um trabalho aquém das necessidades dos estudantes, não porque assim o queiram, mas porque suas condições de saúde (geralmente emocionais) os impedem de fazer melhor.
No segundo semestre, fomos “brindados” com as tais enturmações, processo pelo qual, com vistas ainda a economizar com recursos humanos, turmas de alunos foram unificadas e lotadas com até cinqüenta estudantes. Algo deplorável do ponto de vista pedagógico, principalmente se conhecendo a realidade estrutural da imensa maioria das escolas públicas. Deplorável do ponto de vista social, levando-se em conta a declaração da penúltima coordenadora da 1.ª Coordenadoria de Educação de Porto Alegre ao afirmar que “educação de jovens e adultos não é prioridade do governo, afinal os adultos já tiveram sua chance e não souberam aproveitar”, para justificar o fechamento das turmas de EJAs. Deplorável do ponto de vista sociológico ao enturmar, principalmente nas periferias, membros de gangues e “bondes” rivais. E os educadores e direções que se virassem com os conflitos. Contra tais medidas, mobilizaram-se as comunidades escolares de todo o Rio Grande do Sul. Mas, mesmo assim, muitas direções de escolas cederam, por medo ou interesses administrativos com aparente preocupação em melhorar as condições materiais e pedagógicas das suas escolas e nenhuma visão estratégica (médio e longo prazo) da forte investida privatista sobre os serviços públicos do Rio Grande do Sul, inclusive a educação.
É o caso das escolas que aderiram ao projeto “Jovem de Futuro – Qualidade Total no Ensino Médio”, parceria firmada entre o Instituto Unibanco, a Secretaria de Estado da Educação e as escolas públicas de ensino médio, “com o objetivo de contribuir para a melhoria do atendimento educacional oferecido por estas escolas” [1].
Em primeiro lugar, não é demais lembrar que “Qualidade Total” é uma das diversas teorias, técnicas e métodos de gerenciamento da produção implantado nos inícios dos anos 90 pelas empresas capitalistas deslumbradas com o neoliberalismo entrante no Brasil. Just in time, Kan ban, Reengenharia e Qualidade Total, são algumas dessas teorias e métodos “modernos” de gerenciamento da produção, algumas delas complementares entre si, que objetivam otimizar os lucros das empresas através, dentre outras coisas, enxugando folhas de pagamento através da terceirização de certos serviços. Em certos casos esses métodos se assemelham ao que Lênin chamou de puting out system em sua obra O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, onde analisa o desenvolvimento econômico daquele país no século XIX.
O tal projeto embora declare que “... a melhoria da qualidade da escola depende de um processo que garanta a autonomia da comunidade escolar (...) na identificação dos fatores que interferem no resultado de sua ação educativa e na definição de estratégias que possam garantir um melhor desempenho de seus alunos”[2], algema essa “autonomia” à obrigatoriedade de participação da equipe escolar “em todas as etapas do processo de três anos (prazo de execução do projeto): planejamento, execução, monitoramento e avaliação”[3]. Dentre as obrigações das escolas participantes estão: * criação de um conselho gestor do projeto; * aplicação dos testes padronizados (SAEB, ENEM, ou outro a ser criado, grifo meu); * Fornecer, quando solicitado, notas bimestrais e freqüência dos alunos; * providenciar o preenchimento do cadastro dos alunos (grifo meu); * mobilização da comunidade do entorno para se integrarem ao processo[4]. Dentre os diversos compromissos da Secretaria de Educação, dois, a meu ver, são dignos de nota, quais sejam: * disponibilizar dados sobre a Rede de Ensino Médio e * utilizar os resultados da experiência como insumo na definição de políticas públicas para o ensino médio.
Os recursos financeiros oriundos desse projeto – entre R$ 75,00 e R$ 100,00 por aluno matriculado/ano – poderão ser utilizados dentre outras coisas para: * premiações de professores: assiduidade, pontualidade, desempenho escolar dos alunos, desenvolvimento de projetos inovadores, etc.
O estado de penúria que vive a educação pública brasileira e que no caso gaúcho significa professores mal-pagos, salários parcelados e atrasados, empréstimos bancários sem nenhuma garantia do Estado para receber o 13.° salário, escolas demolidas e desestruturadas material e profissionalmente, repasses da autonomia financeira das escolas atrasados e com pernas de anão, obviamente faz muitos gestores balançarem. Estes preocupados em dar uma solução para os dramas particulares das escolas que administram, não se deram conta ou fizeram ouvidos de mercador para o projeto estratégico do governo Yeda que é a privatização dos serviços públicos como já é uma realidade em discussão nos casos do Daer, Corsan, Corag, Cultura, através da transferência desses setores para o controle de OSCIPs – Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. E isto começa a acontecer na Educação. Ou o Instituto Unibanco não é uma OSCIP?! Não seriam as escolas aderentes ao projeto, laboratórios desse “novo jeito de governar” em educação?!
As conseqüências da adesão de certas escolas, algumas delas referências em Porto Alegre, já são notadas. Enturmações em escolas que vinham resistindo, afrontando deliberações das comunidades escolares, por exemplo, determinadas certamente pela exigência de “preenchimento do cadastro dos alunos”.
Mas, a conseqüência mais nefasta, talvez, está expressa em matéria do jornal Correio do Povo do dia 17 de outubro, à página 6, aonde o diretor de uma dessas grandes escolas que aderiram ao projeto exorta professoras e professores que tiverem “vontade de fazer um trabalho pedagógico diferente com o aluno” a enviar o currículo para análise[5]. O diretor “acrescenta que serão oferecidas creche e matrícula aos filhos dos docentes e apoio financeiro para projetos pedagógicos” [6]. A matéria encerra informando que “a instituição foi selecionada para participar de projeto no qual receberá mais de R$ 700 mil em três anos”[7].
Ora, aquilo que, por lei, é atribuição e obrigação da mantenedora, a seleção, recrutamento e provimento de recursos humanos, passa a ser exercido pelos diretores das escolas que se renderem à lógica do capital privado. Abre-se, assim, um perigoso precedente para uma guerra entre escolas pelos profissionais mais competentes. Leva quem premiar melhor aquilo que é obrigação de qualquer profissional sério nomeado ou contratado pelo Estado.
Da mesma forma, ao arrepio da própria Constituição, o direito do filho do operário, da empregada doméstica ou mesmo de professoras que não trabalharem na referida instituição, em ter acesso à creche (a referida instituição, hoje, oferece educação infantil, desde o maternal para a comunidade através de sorteio) é retirado à socapa, afinal, a menos que sejam criadas novas vagas para a comunidade, boa parte das existentes seria ocupada pelos filhos das professoras da instituição que passariam, assim, a constituir uma (ou mais uma) casta privilegiada dentre as tantas já existentes país afora.
Obviamente, devem existir professores e diretores favoráveis à privatização da educação. Pois então, que sejam francos e claros e digam isto com todas as letras para as comunidades que os elegeram.
Do contrário, que lutem junto com aqueles que defendem a educação púbica de boa qualidade como direito inalienável do povo brasileiro! Lutem com aqueles que entendem que educação não é mais uma mercadoria lucrativa nas prateleiras dos mercados capitalistas!
Os colegas e as colegas professores que lutam com todas as dificuldades para sobreviverem, mas não colocam a sua dignidade e competência profissional à venda certamente continuarão seguindo o caminho trilhado até aqui.
Por fim, resta claro a “urgência” da realização do Saers. Além de prestar contas às agências financiadoras internacionais, é preciso criar as condições favoráveis à privatização da educação gaúcha. E o governo Yeda só tem mais três anos para executar o serviço. Cabe questionar: por que a Universidade Federal de Juiz de Fora foi a vencedora do processo de licitação para elaboração das provas do Saers? Seria porque foi a mesma instituição que desenvolveu esse processo no estado de Minas Gerais, governado por Aécio Neves, do mesmo PSDB de Yeda? A UFRGS ou a própria UERGS não teriam as mesmas condições técnicas de atender essa demanda? Por quê? Por que a única entidade ligada à educação convidada a participar do Saers foi o Sinep, o sindicato das escolas particulares? Por que o CPERS, as entidades de professores dos municípios e o próprio Sinpro não foram convidados?
Saers e Projeto Jovem de Futuro – Qualidade Total no Ensino Médio/Instituto Unibanco, duas faces de uma mesma moeda! A moeda podre da privatização!
[1] Manual do Projeto, página 3.
[2] Idem, p. 4
[3] Idem, p. 9 – Compromissos da Equipe Escolar
[4] Idem, ibidem.
[5] Correio do Povo, 17/10/2007.
[6] Idem, ibidem.
[7] Idem, ibidem.
No segundo semestre, fomos “brindados” com as tais enturmações, processo pelo qual, com vistas ainda a economizar com recursos humanos, turmas de alunos foram unificadas e lotadas com até cinqüenta estudantes. Algo deplorável do ponto de vista pedagógico, principalmente se conhecendo a realidade estrutural da imensa maioria das escolas públicas. Deplorável do ponto de vista social, levando-se em conta a declaração da penúltima coordenadora da 1.ª Coordenadoria de Educação de Porto Alegre ao afirmar que “educação de jovens e adultos não é prioridade do governo, afinal os adultos já tiveram sua chance e não souberam aproveitar”, para justificar o fechamento das turmas de EJAs. Deplorável do ponto de vista sociológico ao enturmar, principalmente nas periferias, membros de gangues e “bondes” rivais. E os educadores e direções que se virassem com os conflitos. Contra tais medidas, mobilizaram-se as comunidades escolares de todo o Rio Grande do Sul. Mas, mesmo assim, muitas direções de escolas cederam, por medo ou interesses administrativos com aparente preocupação em melhorar as condições materiais e pedagógicas das suas escolas e nenhuma visão estratégica (médio e longo prazo) da forte investida privatista sobre os serviços públicos do Rio Grande do Sul, inclusive a educação.
É o caso das escolas que aderiram ao projeto “Jovem de Futuro – Qualidade Total no Ensino Médio”, parceria firmada entre o Instituto Unibanco, a Secretaria de Estado da Educação e as escolas públicas de ensino médio, “com o objetivo de contribuir para a melhoria do atendimento educacional oferecido por estas escolas” [1].
Em primeiro lugar, não é demais lembrar que “Qualidade Total” é uma das diversas teorias, técnicas e métodos de gerenciamento da produção implantado nos inícios dos anos 90 pelas empresas capitalistas deslumbradas com o neoliberalismo entrante no Brasil. Just in time, Kan ban, Reengenharia e Qualidade Total, são algumas dessas teorias e métodos “modernos” de gerenciamento da produção, algumas delas complementares entre si, que objetivam otimizar os lucros das empresas através, dentre outras coisas, enxugando folhas de pagamento através da terceirização de certos serviços. Em certos casos esses métodos se assemelham ao que Lênin chamou de puting out system em sua obra O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, onde analisa o desenvolvimento econômico daquele país no século XIX.
O tal projeto embora declare que “... a melhoria da qualidade da escola depende de um processo que garanta a autonomia da comunidade escolar (...) na identificação dos fatores que interferem no resultado de sua ação educativa e na definição de estratégias que possam garantir um melhor desempenho de seus alunos”[2], algema essa “autonomia” à obrigatoriedade de participação da equipe escolar “em todas as etapas do processo de três anos (prazo de execução do projeto): planejamento, execução, monitoramento e avaliação”[3]. Dentre as obrigações das escolas participantes estão: * criação de um conselho gestor do projeto; * aplicação dos testes padronizados (SAEB, ENEM, ou outro a ser criado, grifo meu); * Fornecer, quando solicitado, notas bimestrais e freqüência dos alunos; * providenciar o preenchimento do cadastro dos alunos (grifo meu); * mobilização da comunidade do entorno para se integrarem ao processo[4]. Dentre os diversos compromissos da Secretaria de Educação, dois, a meu ver, são dignos de nota, quais sejam: * disponibilizar dados sobre a Rede de Ensino Médio e * utilizar os resultados da experiência como insumo na definição de políticas públicas para o ensino médio.
Os recursos financeiros oriundos desse projeto – entre R$ 75,00 e R$ 100,00 por aluno matriculado/ano – poderão ser utilizados dentre outras coisas para: * premiações de professores: assiduidade, pontualidade, desempenho escolar dos alunos, desenvolvimento de projetos inovadores, etc.
O estado de penúria que vive a educação pública brasileira e que no caso gaúcho significa professores mal-pagos, salários parcelados e atrasados, empréstimos bancários sem nenhuma garantia do Estado para receber o 13.° salário, escolas demolidas e desestruturadas material e profissionalmente, repasses da autonomia financeira das escolas atrasados e com pernas de anão, obviamente faz muitos gestores balançarem. Estes preocupados em dar uma solução para os dramas particulares das escolas que administram, não se deram conta ou fizeram ouvidos de mercador para o projeto estratégico do governo Yeda que é a privatização dos serviços públicos como já é uma realidade em discussão nos casos do Daer, Corsan, Corag, Cultura, através da transferência desses setores para o controle de OSCIPs – Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. E isto começa a acontecer na Educação. Ou o Instituto Unibanco não é uma OSCIP?! Não seriam as escolas aderentes ao projeto, laboratórios desse “novo jeito de governar” em educação?!
As conseqüências da adesão de certas escolas, algumas delas referências em Porto Alegre, já são notadas. Enturmações em escolas que vinham resistindo, afrontando deliberações das comunidades escolares, por exemplo, determinadas certamente pela exigência de “preenchimento do cadastro dos alunos”.
Mas, a conseqüência mais nefasta, talvez, está expressa em matéria do jornal Correio do Povo do dia 17 de outubro, à página 6, aonde o diretor de uma dessas grandes escolas que aderiram ao projeto exorta professoras e professores que tiverem “vontade de fazer um trabalho pedagógico diferente com o aluno” a enviar o currículo para análise[5]. O diretor “acrescenta que serão oferecidas creche e matrícula aos filhos dos docentes e apoio financeiro para projetos pedagógicos” [6]. A matéria encerra informando que “a instituição foi selecionada para participar de projeto no qual receberá mais de R$ 700 mil em três anos”[7].
Ora, aquilo que, por lei, é atribuição e obrigação da mantenedora, a seleção, recrutamento e provimento de recursos humanos, passa a ser exercido pelos diretores das escolas que se renderem à lógica do capital privado. Abre-se, assim, um perigoso precedente para uma guerra entre escolas pelos profissionais mais competentes. Leva quem premiar melhor aquilo que é obrigação de qualquer profissional sério nomeado ou contratado pelo Estado.
Da mesma forma, ao arrepio da própria Constituição, o direito do filho do operário, da empregada doméstica ou mesmo de professoras que não trabalharem na referida instituição, em ter acesso à creche (a referida instituição, hoje, oferece educação infantil, desde o maternal para a comunidade através de sorteio) é retirado à socapa, afinal, a menos que sejam criadas novas vagas para a comunidade, boa parte das existentes seria ocupada pelos filhos das professoras da instituição que passariam, assim, a constituir uma (ou mais uma) casta privilegiada dentre as tantas já existentes país afora.
Obviamente, devem existir professores e diretores favoráveis à privatização da educação. Pois então, que sejam francos e claros e digam isto com todas as letras para as comunidades que os elegeram.
Do contrário, que lutem junto com aqueles que defendem a educação púbica de boa qualidade como direito inalienável do povo brasileiro! Lutem com aqueles que entendem que educação não é mais uma mercadoria lucrativa nas prateleiras dos mercados capitalistas!
Os colegas e as colegas professores que lutam com todas as dificuldades para sobreviverem, mas não colocam a sua dignidade e competência profissional à venda certamente continuarão seguindo o caminho trilhado até aqui.
Por fim, resta claro a “urgência” da realização do Saers. Além de prestar contas às agências financiadoras internacionais, é preciso criar as condições favoráveis à privatização da educação gaúcha. E o governo Yeda só tem mais três anos para executar o serviço. Cabe questionar: por que a Universidade Federal de Juiz de Fora foi a vencedora do processo de licitação para elaboração das provas do Saers? Seria porque foi a mesma instituição que desenvolveu esse processo no estado de Minas Gerais, governado por Aécio Neves, do mesmo PSDB de Yeda? A UFRGS ou a própria UERGS não teriam as mesmas condições técnicas de atender essa demanda? Por quê? Por que a única entidade ligada à educação convidada a participar do Saers foi o Sinep, o sindicato das escolas particulares? Por que o CPERS, as entidades de professores dos municípios e o próprio Sinpro não foram convidados?
Saers e Projeto Jovem de Futuro – Qualidade Total no Ensino Médio/Instituto Unibanco, duas faces de uma mesma moeda! A moeda podre da privatização!
[1] Manual do Projeto, página 3.
[2] Idem, p. 4
[3] Idem, p. 9 – Compromissos da Equipe Escolar
[4] Idem, ibidem.
[5] Correio do Povo, 17/10/2007.
[6] Idem, ibidem.
[7] Idem, ibidem.
18.10.07
Um dos sentidos de liberdade no anarquismo
"Eu não me torno verdadeiramente livre senão quando todos os seres humanos que me rodeiam, homens e mulheres, são igualmente livres. A liberdade do outro, longe de ser um limite ou a negação da minha liberdade é, ao contrário, sua condição necessária e sua confirmação. Eu não me torno verdadeiramente livre senão pela liberdade dos outros, de sorte que quanto mais numerosos são os homens livres que me rodeiam e mais profunda e larga é sua liberdade, e mais estendida, mais profunda e larga torna-se a minha liberdade. É, ao contrário, a escravidão dos homens que põe uma barreira a minha liberdade, ou o que significa o mesmo, é sua bestialidade que é uma negação da minha humanidade, pois mais uma vez eu não posso me dizer verdadeiramente livre senão quando minha liberdade - ou o que quer dizer a mesma coisa, quando minha dignidade de homem, meu direito humano, que consiste em não obedecer a nenhum outro homem e a não determinar meus atos senão conforme minhas próprias convicções - refletida pela consciência igualmente livre de todos, retorna confirmada pelo assentimento de todos. Minha liberdade pessoal, assim confirmada pela liberdade de todo o mundo, se estende ao infinito."
(BAKOUNINE, Michel. Dieu e l'État. In: OEuvres. Paris: Stock, 1980, p. 312s.)
Nota: (péssima) tradução minha.
(BAKOUNINE, Michel. Dieu e l'État. In: OEuvres. Paris: Stock, 1980, p. 312s.)
Nota: (péssima) tradução minha.
10.10.07
Verdades divergentes que não se excluem
Leia o livro de um liberal qualquer (de preferência da escola de Chicago) e, antes de usá-lo para limpar a bunda, reflita: um empresário que deseja apenas que o governo não interfira no seu negócio, sem ter, assim, que se preocupar com CLT, conservação do ambiente e "bobagens" afins, enfim,um empresário que só quer ser livre, está errado em desejar isso? Ele entra em contradição?
Para mim, NÃO! Se alguém, para se dar bem, precisa passar por cima do outro, o mínimo que se espera dele é que queira ter liberdade para fazer isso. Quando defende seus pontos de vista, ele pode usar argumentos muito coerentes e corretos.
Então, por qual razão muitas pessoas sentem certo asco, repugnância ou raiva quando lêem esses caras?
Fato simples: o pano de fundo.
Qual o meu pano de fundo, em termos de sentido de vida e sentido de manutenção da vida - duas coisa que são praticamente a mesma coisa? E qual é o pano de fundo desses liberais, em geral? É aqui, pois, que se encontra a chave da resolução do problema: mesmo excluindo questões de qualidade de argumentação, a grande divergência se encontra na diferença abismal de sentido da vida, no sentido de formas de relação entre os homens e de formas possíveis de se manter o mundo material (este, intimamente relacionado ao mundo "espiritual").
Qual o sentido da minha vida? De uma forma tosca e rápida, poderia dizer que é viver em paz comigo, com meus amigos e meus amores, e conseguir me manter numa forma de trabalho que dê mais sentido pra minha vida, me fazendo viver melhor o mundo, não só pelo dinheiro, mas pelos amigos do serviço, por certos conhecimentos aprendidos, por certas sensibilidades desenvolvidas. Tem muito mais, é claro, mas isso já serve como resposta rápida. Agora, quais os nortes de um defensor do capialismo? Basta ler a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, do Max Weber, para se ter uma noção.
Defesa do sistema de relações não é tanto uma questão de argumentação, mas principalmente de fé. Um anarquista e um liberal podem ter posições completamente diferentes e, ainda assim, os argumentos de ambos serem completamente coerentes, quando estes argumentos estão relacionados a própria fé, ao próprio pano de fundo. Agora, como vão se resolver essas diferenças de verdades contraditórias e não excludentes? Essa é que é a grande questão.
Para mim, NÃO! Se alguém, para se dar bem, precisa passar por cima do outro, o mínimo que se espera dele é que queira ter liberdade para fazer isso. Quando defende seus pontos de vista, ele pode usar argumentos muito coerentes e corretos.
Então, por qual razão muitas pessoas sentem certo asco, repugnância ou raiva quando lêem esses caras?
Fato simples: o pano de fundo.
Qual o meu pano de fundo, em termos de sentido de vida e sentido de manutenção da vida - duas coisa que são praticamente a mesma coisa? E qual é o pano de fundo desses liberais, em geral? É aqui, pois, que se encontra a chave da resolução do problema: mesmo excluindo questões de qualidade de argumentação, a grande divergência se encontra na diferença abismal de sentido da vida, no sentido de formas de relação entre os homens e de formas possíveis de se manter o mundo material (este, intimamente relacionado ao mundo "espiritual").
Qual o sentido da minha vida? De uma forma tosca e rápida, poderia dizer que é viver em paz comigo, com meus amigos e meus amores, e conseguir me manter numa forma de trabalho que dê mais sentido pra minha vida, me fazendo viver melhor o mundo, não só pelo dinheiro, mas pelos amigos do serviço, por certos conhecimentos aprendidos, por certas sensibilidades desenvolvidas. Tem muito mais, é claro, mas isso já serve como resposta rápida. Agora, quais os nortes de um defensor do capialismo? Basta ler a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, do Max Weber, para se ter uma noção.
Defesa do sistema de relações não é tanto uma questão de argumentação, mas principalmente de fé. Um anarquista e um liberal podem ter posições completamente diferentes e, ainda assim, os argumentos de ambos serem completamente coerentes, quando estes argumentos estão relacionados a própria fé, ao próprio pano de fundo. Agora, como vão se resolver essas diferenças de verdades contraditórias e não excludentes? Essa é que é a grande questão.
9.10.07
Das pequenas coisas
Minha casa é uma bagunça! As costuras da minha mãe prum lado, meus polígrafos e livros pra outros, a bagunça tosca do meu irmão em quase tudo... e isso diz muito sobre a minha família, isso diz muito sobre minha vida. Definitivamente, são as pequenas coisas que falam melhor sobre a gente. Senti vontade de soltar essa sinceridade depois de ler o seguinte texto aqui, do Blog de Meninas, de mais uma autora que não conheço.
18.9.07
Notas autobiográficas de alguém que não existe
Já era um homem velho há muito tempo. Um espírito nebuloso dificultava sua visão, tornando-o quase um cego com visão perfeita. E sempre insatisfeito. Vivenciou tantas coisas em sua vida. Apesar da pouca idade – recém completara 27 anos – era um rapaz experimentado e pouco afeito, agora, às novas experiências.
Optou esta noite por mais uma volta nas ruas escuras de sua cidade. Bares repletos de homens vazios, já dizia o poeta. Sentou-se para uma cerveja, num desses butecos típicos, longe dos bares mais badalados. Sentia-se tremendamente só. Sim, vivia um memento tenso. Tão tenso que usava freqüentemente advérbios: toda frase, inequivocamente, levaria um.
Fora deixado por todos os que mais considerava seus amigos. Os amigos se foram, as mulheres se foram, a família tão distante, o copo vazio. “Garçon, mais uma!”: essas foram as primeiras palavras ditas nas últimas oito horas. É possível ficar tanto tempo calado, principalmente depois que se aprende a responder – ou se contenta em responder – aos outros com simples gestos de cabeça. Desiludido! Os amigos criam uma ilusão fácil de perenidade. Toda moça linda cria uma sensação de eterno. Por isso tudo é tão belo! Não estava mais pronto para falar, ter intimidade, com alguém. Não queria. A solidão já era para ele uma escolha. Não se sentia bem para querer beber, mas bebia para relativizar o amargor.
Mas não sabia mais o que era sofrer. Aprendeu a observar as coisas em sua naturalidade. Sentia certo amargor, mas não dor nem desespero. Aprendeu a viver. O dinheiro era pouco, e tão óbvio quanto isso era a vontade (e a necessidade) de usá-lo para beber. Só, meio amargo, mas nunca vazio. Enquanto não fala, sua voz interior da voltas tremendas, cruzando do céu ao inferno, com paradas em lugares só aparentemente impossíveis de se chegar. É um ermitão e um andarilho, e isso também em sua cabeça. O movimento é a marca desse sujeito. Sim, é um sujeitado pela vida. Mas alguém que procura brechas para virar agente. Vê tudo isso como belo. Esse amargor, que não é dor, recobre tudo como a geada na grama, como neblina numa manhã fria: nada se vê, mas se sabe que está lá. O que está lá, como, com qual forma? É o Mistério. Talvez o Mistério da vida mesmo... riu-se de si mesmo. Que bonito é isso de rir de si mesmo, de não se levar a sério, ver as coisas com olhos leves, espírito quase sapeca, meio contemplativo, meio criança... sua família se foi, seu emprego se foi, tudo se foi. Hoje tem mais de oito horas do seu dia roubados em troca de um pouco de pão e cerveja. Mas isso não o incomoda tanto. Ama muito a si, mas esses longos tempos de solidão são duros. Mas sabe que foi nesses longos, e não poucos, tempos de solidão que descobriu grandes coisas de sua pequena vida, vivenciando neles, de vez em quando, talvez o próprio Mistério. Qual o sentido de tudo? Ele não sabia responder, mas tocou o telefone. Ele já sabia: era ela! Tantas vezes sumida, tantas vezes ressurgida. Essas fugidias moças, que nos amargam na fuga, nos embriagam na volta. Tentar reproduzir, em palavras, o que sentiu nos momentos seguintes é o mesmo que tentar guardar, na eternidade, uma flor de primavera entre as páginas de um livro. Há coisas que só são belas por sua efemeridade. A textura e o espinho não se conservam no tempo. Sabia que estando com ela não deixaria de estar só, mas o perfume da rosa ia embaralhar sua percepção por um instante.
Na janela do apartamento dela havia aquela luz habitual. Seria uma noite bonita, acontecesse o que acontecesse.
Optou esta noite por mais uma volta nas ruas escuras de sua cidade. Bares repletos de homens vazios, já dizia o poeta. Sentou-se para uma cerveja, num desses butecos típicos, longe dos bares mais badalados. Sentia-se tremendamente só. Sim, vivia um memento tenso. Tão tenso que usava freqüentemente advérbios: toda frase, inequivocamente, levaria um.
Fora deixado por todos os que mais considerava seus amigos. Os amigos se foram, as mulheres se foram, a família tão distante, o copo vazio. “Garçon, mais uma!”: essas foram as primeiras palavras ditas nas últimas oito horas. É possível ficar tanto tempo calado, principalmente depois que se aprende a responder – ou se contenta em responder – aos outros com simples gestos de cabeça. Desiludido! Os amigos criam uma ilusão fácil de perenidade. Toda moça linda cria uma sensação de eterno. Por isso tudo é tão belo! Não estava mais pronto para falar, ter intimidade, com alguém. Não queria. A solidão já era para ele uma escolha. Não se sentia bem para querer beber, mas bebia para relativizar o amargor.
Mas não sabia mais o que era sofrer. Aprendeu a observar as coisas em sua naturalidade. Sentia certo amargor, mas não dor nem desespero. Aprendeu a viver. O dinheiro era pouco, e tão óbvio quanto isso era a vontade (e a necessidade) de usá-lo para beber. Só, meio amargo, mas nunca vazio. Enquanto não fala, sua voz interior da voltas tremendas, cruzando do céu ao inferno, com paradas em lugares só aparentemente impossíveis de se chegar. É um ermitão e um andarilho, e isso também em sua cabeça. O movimento é a marca desse sujeito. Sim, é um sujeitado pela vida. Mas alguém que procura brechas para virar agente. Vê tudo isso como belo. Esse amargor, que não é dor, recobre tudo como a geada na grama, como neblina numa manhã fria: nada se vê, mas se sabe que está lá. O que está lá, como, com qual forma? É o Mistério. Talvez o Mistério da vida mesmo... riu-se de si mesmo. Que bonito é isso de rir de si mesmo, de não se levar a sério, ver as coisas com olhos leves, espírito quase sapeca, meio contemplativo, meio criança... sua família se foi, seu emprego se foi, tudo se foi. Hoje tem mais de oito horas do seu dia roubados em troca de um pouco de pão e cerveja. Mas isso não o incomoda tanto. Ama muito a si, mas esses longos tempos de solidão são duros. Mas sabe que foi nesses longos, e não poucos, tempos de solidão que descobriu grandes coisas de sua pequena vida, vivenciando neles, de vez em quando, talvez o próprio Mistério. Qual o sentido de tudo? Ele não sabia responder, mas tocou o telefone. Ele já sabia: era ela! Tantas vezes sumida, tantas vezes ressurgida. Essas fugidias moças, que nos amargam na fuga, nos embriagam na volta. Tentar reproduzir, em palavras, o que sentiu nos momentos seguintes é o mesmo que tentar guardar, na eternidade, uma flor de primavera entre as páginas de um livro. Há coisas que só são belas por sua efemeridade. A textura e o espinho não se conservam no tempo. Sabia que estando com ela não deixaria de estar só, mas o perfume da rosa ia embaralhar sua percepção por um instante.
Na janela do apartamento dela havia aquela luz habitual. Seria uma noite bonita, acontecesse o que acontecesse.
4.9.07
Liberdade, desejo típico de escravo
Quem nunca sentiu que estava perto da morte? Aquela sensação angustiante de que tudo o que há pode chegar ao fim, ir por água abaixo?
Essa é uma sensação que me vem com certa freqüência... e é quando tudo faz sentido! Se se pensar os mil condicionantes e determinantes que na história possibilitaram o mundo atual e o meu nascimento, se se pensar tudo que vivi, de bom, de “hostil” e de mal – que, no final, é quase tudo bom –, então se chega à conclusão: é tudo um grande dom do acaso e da história! E assim como o recebemos, assim nos será retirado, o que nos exige aproveitar seus pequenos sabores – e disabores!
A sensação de morte traz sentido à vida: toda obrigação, tristeza e peso de viver parecem quase evanescer diante do nada da morte... e só então um raro – e indiscreto – gostinho de liberdade nos vem à língua.
Qual seriam as últimas coisas que você faria se soubesse que está para morrer logo? (pergunta clichê, eu sei, mas necessária). Normalmente, a resposta dada se resume a uma boa orgia, ou pelo menos uma sacanagem com aquela menina específica (e quem sabe até especial!).
Pois bem, e no caso de se receber a notícia do fim bem no meio da rua, sozinho, sem um puto pila no bolso, celular sem crédito, etc.? Nada de orgia! Quem sabe o desconforto, quase desespero, de perder tudo que tem na vida! O perigo de encontrar o diabo – e pior ainda. Deus! –, lá do outro lado, depois de uma vida inconforme!
MAS de que adianta esse medo diante do que não se conhece? Sócrates, em sua apologia escrita por Platão, diria que ter medo do desconhecido (no caso, o que vem depois de morrer) não passa de pura arrogância.
Basta parar para sentir o corpo relativamente saudável, lembrar os bons amigos que se fizeram no dia-a-dia, a família, os amores... o sol quente... e mesmo o ar poluído da avenida Ipiranga. Nesse momento incompreensível, em que tudo na vida corre o risco de ser perdido (como se nós tivéssemos, de fato, alguma coisa), é que podemos separar o joio do trigo, separar aquilo que dá algum sentido à vida daquilo que fazemos por força de obrigações... aí então, como que sem o peso da muita tralha que carregamos todo dia conosco (trabalho, desentendimentos familiares, bestas obrigações ditas morais, etc.), vem aquela sensaçãozinha de “livre” – “que diferença faz tudo isso pra mim”, seguido de um sorriso muito arejado.
A sensação de morte liberta, nem que seja por um curto tempo, mas liberta.
Essa é uma sensação que me vem com certa freqüência... e é quando tudo faz sentido! Se se pensar os mil condicionantes e determinantes que na história possibilitaram o mundo atual e o meu nascimento, se se pensar tudo que vivi, de bom, de “hostil” e de mal – que, no final, é quase tudo bom –, então se chega à conclusão: é tudo um grande dom do acaso e da história! E assim como o recebemos, assim nos será retirado, o que nos exige aproveitar seus pequenos sabores – e disabores!
A sensação de morte traz sentido à vida: toda obrigação, tristeza e peso de viver parecem quase evanescer diante do nada da morte... e só então um raro – e indiscreto – gostinho de liberdade nos vem à língua.
Qual seriam as últimas coisas que você faria se soubesse que está para morrer logo? (pergunta clichê, eu sei, mas necessária). Normalmente, a resposta dada se resume a uma boa orgia, ou pelo menos uma sacanagem com aquela menina específica (e quem sabe até especial!).
Pois bem, e no caso de se receber a notícia do fim bem no meio da rua, sozinho, sem um puto pila no bolso, celular sem crédito, etc.? Nada de orgia! Quem sabe o desconforto, quase desespero, de perder tudo que tem na vida! O perigo de encontrar o diabo – e pior ainda. Deus! –, lá do outro lado, depois de uma vida inconforme!
MAS de que adianta esse medo diante do que não se conhece? Sócrates, em sua apologia escrita por Platão, diria que ter medo do desconhecido (no caso, o que vem depois de morrer) não passa de pura arrogância.
Basta parar para sentir o corpo relativamente saudável, lembrar os bons amigos que se fizeram no dia-a-dia, a família, os amores... o sol quente... e mesmo o ar poluído da avenida Ipiranga. Nesse momento incompreensível, em que tudo na vida corre o risco de ser perdido (como se nós tivéssemos, de fato, alguma coisa), é que podemos separar o joio do trigo, separar aquilo que dá algum sentido à vida daquilo que fazemos por força de obrigações... aí então, como que sem o peso da muita tralha que carregamos todo dia conosco (trabalho, desentendimentos familiares, bestas obrigações ditas morais, etc.), vem aquela sensaçãozinha de “livre” – “que diferença faz tudo isso pra mim”, seguido de um sorriso muito arejado.
A sensação de morte liberta, nem que seja por um curto tempo, mas liberta.
30.8.07
"Nota sobre educação" ou, "o ser humano é, necessariamente, um animal"
A função da escola e da educação não é transformar um animalzinho em gente civilizada. Isso é mito, e o que se consegue por meio disso são amputações. O desafio da educação é fazer do animalzinho do educando um animalzinho ruminante, quer dizer, um pensador, quer dizer, alguém que pare para pensar. Parar para ruminar: isso sim, uma educação a base de regorgito e (re)mastigação.
23.8.07
Blog sobre economia
Opa!
Descobri mais um blog português, agora sobre economia. Não sei qual a inclinação do cara. Mas mesmo sendo neo-liberal, vale a pena conferir:
Pura economia
Vale conferir este texto sobre crescimento e entropia, principalmente pra quem está agora estudando a revolução industrial.
Descobri mais um blog português, agora sobre economia. Não sei qual a inclinação do cara. Mas mesmo sendo neo-liberal, vale a pena conferir:
Pura economia
Vale conferir este texto sobre crescimento e entropia, principalmente pra quem está agora estudando a revolução industrial.
21.8.07
E vamos fazer a revolução!
“Vamos fazer a revolução! Que as massas proletárias urbanas e rurais tomem consciência de sua situação de explorados e, juntos, lutem pela igualdade entre os homens e os povos!”
Só resta uma pergunta: qual é o caráter revolucionário dessa proposição? Getúlio Vargas discursava com os mesmos pontos.
Para início de conversa, massa é coisa de padeiro. E enquanto esquerdistas, pró-esquerdistas e grupos de esquerda não desistirem dessa pretensão de serem padeiros, de quererem moldar a massa, a lógica dominante vai permanecer: a vontade de usar da maioria "amorfa" e reificada para cumprir a vontade de poucos. Vargas queria conduzir a povo para uma sociedade melhor – e tivemos um governo autoritário pacas. Os comunistas de 1917 queriam conduzir as massas pruma sociedade melhor, socialista – e tivemos, por fim, a ditadura do partido que oprimiu o proletariado soviético.
Enquanto as pessoas não tiverem condições e relativa liberdade pra decidirem o que realmente querem, não haverá sociedade melhor. Quando falo de condições, falo de oportunidades que estimulem o processo de autonomia, como, por exemplo, uma escola de qualidade preocupada com a formação do raciocínio crítico d seus educandos. Quando falo em relativa liberdade, me refiro a que as pessoas possam escolher o que elas acham melhor - mesmo, sei lá, que seja se decidir por aquele liberalismo tosco de neo-liberal - sem ter um intelectual de merda do lado delas pra dizer: “Ah, mas tu é um alienado, hein?!”.
Só resta uma pergunta: qual é o caráter revolucionário dessa proposição? Getúlio Vargas discursava com os mesmos pontos.
Para início de conversa, massa é coisa de padeiro. E enquanto esquerdistas, pró-esquerdistas e grupos de esquerda não desistirem dessa pretensão de serem padeiros, de quererem moldar a massa, a lógica dominante vai permanecer: a vontade de usar da maioria "amorfa" e reificada para cumprir a vontade de poucos. Vargas queria conduzir a povo para uma sociedade melhor – e tivemos um governo autoritário pacas. Os comunistas de 1917 queriam conduzir as massas pruma sociedade melhor, socialista – e tivemos, por fim, a ditadura do partido que oprimiu o proletariado soviético.
Enquanto as pessoas não tiverem condições e relativa liberdade pra decidirem o que realmente querem, não haverá sociedade melhor. Quando falo de condições, falo de oportunidades que estimulem o processo de autonomia, como, por exemplo, uma escola de qualidade preocupada com a formação do raciocínio crítico d seus educandos. Quando falo em relativa liberdade, me refiro a que as pessoas possam escolher o que elas acham melhor - mesmo, sei lá, que seja se decidir por aquele liberalismo tosco de neo-liberal - sem ter um intelectual de merda do lado delas pra dizer: “Ah, mas tu é um alienado, hein?!”.
E isso cabe muito bem para os (futuros) professores, que não sejam arrogantes de se decepcionarem pelo fato de que os educandos não prestem atenção em aulas pouco interessantes e pouco significativas. Quem disse que o saber acadêmico e super refinado de vocês têm doçura (ou mesmo acidez) a ponto de provocar a atenção dos educandos? (sim, isso estou dizendo pra mim mesmo).
E, pra fechar, citando o Raul Seixas: “A lei do forte, essa é a nossa lei e a alegria do mundo!”20.8.07
Problemas epistemológicos
Uma das maiores dificuldades que tenho - ou melhor, temos - para analisar a sociedade e o mundo é o nosso eurocentrismo arraigado ou outras formas de centrismos em que há um centro poderoso rodeado de coadjuvantes, nos qual nós somos os coadjuvantes. Vide termos como "subdesenvolvido", "terceiro mundo", "pré-colonial", "antes de Colombo", "pré-história" (que significa "pré-escrita"), "pré-revolução industrial", entre outros. Não digo que esses processos, fenômenos, não são importantes. Claro que são. Mas toda análise se pauta a partir desse Outro situado do outro lado do oceano ou do sistema produtivo.
É necessário partir não desse Outro, mas do nosso próprio umbigo. Sem essa transformação epistemológica de mudança de ponto de partida, vamos continuar tão míopes como se não estudassemos/pensassemos nada. Só esse pluralismo racial, étnico, geográfico, econômico, etc., que poderá tornar nosso sistema ocular mais complexo e menos cego.
Como bem lembram muitos intelectuais, como José Augusto dos Anjos e outro, que não me recordo o nome, precisamos cortar o cordão umbilical com a Europa, com seus intelectuais que refletem sua própria realidade, e fazermos o esforço político de encontrar outras fontes no globo, entre pensadores pouco ou não conhecidos, que discutam assuntos parecidos, mas com o enfoque não-hegemônico, distinto da situação européia.
É necessário partir não desse Outro, mas do nosso próprio umbigo. Sem essa transformação epistemológica de mudança de ponto de partida, vamos continuar tão míopes como se não estudassemos/pensassemos nada. Só esse pluralismo racial, étnico, geográfico, econômico, etc., que poderá tornar nosso sistema ocular mais complexo e menos cego.
Como bem lembram muitos intelectuais, como José Augusto dos Anjos e outro, que não me recordo o nome, precisamos cortar o cordão umbilical com a Europa, com seus intelectuais que refletem sua própria realidade, e fazermos o esforço político de encontrar outras fontes no globo, entre pensadores pouco ou não conhecidos, que discutam assuntos parecidos, mas com o enfoque não-hegemônico, distinto da situação européia.
Vai chover? E daí?
Há um oceano de prata nas nossas cabeças hoje, dia nublado. Pra quem está a vagar no mar, há um mar azul ao chão e um outro, cinza, no céu. Isso me lembra o livro mais soberbo (soberbo me parece um nome bem apropriado) que já li: Os Trabalhadores do Mar, do Vitor Hugo. Os aforismos nessa obra são muitos e muito bons. Por exemplo, este aqui.
Inclusive, tenho a impressão que o Gilliat é quase uma aproximação do para-além-do-homem (ou super-homem) pretendido pelo Niet.
Inclusive, tenho a impressão que o Gilliat é quase uma aproximação do para-além-do-homem (ou super-homem) pretendido pelo Niet.
17.8.07
'Fiz o que achava que era certo', disse aos seus amigos
Simples triste calado na parada olhava tranqüilo a moça bonita de verde que passava. Caiu das mãos da dama algo que não pôde definir devido às poucas luzes da noite. Apressado e gentil, correu para catar o objeto e devolvê-lo a sua desatenta dona. Não atentou, entretanto, a pedra no meio do caminho - havia uma pedra no meio do caminho! Mais exatamente, um lage da passarela deslocada. Sua boca conheceu o gosto da lage com a mesma intensidade - e dor - que o dedo do pé que chocou contra a pedra, ambos vertendo lágrimas de sangue. Mas destino pior teve seu caro óculos, que não foi barato na ótica. Mesmo miope, olhando adiante, pode ver as lentes quebradas, com a armação próxima ao seu objetivo: uma embalagem vazia de cigarros que a porca da sua dona havia jogado no chão.
9.8.07
8.8.07
"E essa 'mina' que não me esquece..."
- Sabe a Josi? Bah velho, que 'mina' imbecil! Não dá pra entender? Encontrei com ela 'ontiontem' e fomos tomar um café. 'Tava meio quase um climinha no ar. Daí ela me perguntou da Paula, curiosa. Como e onde a gente se conheceu, se eu curtia ela e tudo mais. Eu só disse que eramos colegas do curso, que achava a guria tri e era só. Só amigos. Ah, meu, que mina palha! Como é que eu curti essa traste? Me some por dois dias, me dá um fora fudido, devolve os presentes que eu dei pra ela - inclusive o de quatro meses de namoro - e depois vem bancar a de ciumenta. Vá se fudê! Mas tenho a leve impressão que ela ainda é afim de mim... (solta um leve suspiro de esperança, seguido de um sorrisinho maroto).
- Alô? Oi Paulinha!, é a Josi, a ex-namorada do Renato. Te lembra de mim? Tudo bem? Sim, comigo tudo tri. Pois é, tens alguma coisa marcada pra esse fim de semana? É que consegui dois ingressos prum cinema. 'Tás afim?
- Alô? Oi Paulinha!, é a Josi, a ex-namorada do Renato. Te lembra de mim? Tudo bem? Sim, comigo tudo tri. Pois é, tens alguma coisa marcada pra esse fim de semana? É que consegui dois ingressos prum cinema. 'Tás afim?
3.8.07
Conhecimento da miséria
"Talvez nada separe já as pessoas e as épocas a não ser o seu grau de conhecimento da miséria: tanto a da alma como a do corpo. No que se refere a esta última, talvez nós, homens de hoje, apesar de todas as nossas fraquezas e de nossas enfermidades, sejamos ignorantes e fantasistas, por falta de experiência pessoal, a experiência que teve a idade do medo - o mais demorado período da história - quando o indivíduo devia proteger-se por si próprio contra a violência e tornar-se a si próprio, para esse fim, um violento. Nessa época o homem fazia uma copiosa aprendizagem do sofrimento físico e da privação; via até no exercício de uma certa crueldade para consigo mesmo e no sofrimento voluntário, um meio necessário à sua conservação; treinava-se então o seu meio a saber suportar o mal, acrescentando-o até de bom grado, e viam-se os piores suplícios dos outros sem experimentar outro sentimento que não fosse o da própria segurança.
Quanto à miséria da alma, continuo a examinar agora se aquele que dela fala a conhece por experiência ou por leitura; se julga ser necessário, por exemplo, simular o conhecimento desta miséria, para testemunhar uma certa cultura, ou se o imo da sua alma se recusa a acreditar em bloco em todo e qualquer sofrimento moral; se, quando se designam esses sofrimentos, não se passa nele qualquer coisa de análogo ao que acontece quando lhe falam de grandes sofrimentos físicos – recordam-lhe as suas dores de dentes ou de estômago. Parece-me que a maior parte das pessoas é assim que sente. Já ninguém é treinado no sofrimento, nem físico nem moral, ninguém vê uma pessoa sofrer a não ser muito raramente; do que resulta uma consequência muito importante: é a de que se odeia agora o sofrimento mais do que antigamente, que dele se diz mais mal do que nunca, e que se vai mesmo ao ponto de já nem sequer se lhe poder suportar a idéia: disso se faz uma questão de consciência e uma censura à existência, na sua totalidade. A floração de filosofias pessimistas não é de forma alguma indício de terríveis sofrimentos; muito pelo contrário, fazem-se estas interrogações sobre o valor geral da vida em épocas em que o conforto e a facilidade acham já cruéis, demasiado sangrentas, as pequenas picadelas de mosquitos que não se podem evitar nem ao corpo nem à alma e quereriam, na penúria de autênticas experiências dolorosas, fazer aparecer a imaginação do suplício como um sofrimento de espécie superior.
Haveria realmente um remédio a indicar contra as filosofias pessimistas e o excesso de sensibilidade que me parece ser a verdadeira 'miséria dos tempos presentes',... mas talvez esta receita parecesse demasiado cruel; haviam de a classificar sem dúvida nenhuma no número dos sintomas em que se baseiam agora pra considerar que 'a vida é um mal'. Seja! O remédio contra a 'miséria' chama-se – miséria."
(NIETZSCHE. A Gaia Ciência. Aforismo 48. Lisboa: Guimarães Editores, 1984. p. 78-80)
Quanto à miséria da alma, continuo a examinar agora se aquele que dela fala a conhece por experiência ou por leitura; se julga ser necessário, por exemplo, simular o conhecimento desta miséria, para testemunhar uma certa cultura, ou se o imo da sua alma se recusa a acreditar em bloco em todo e qualquer sofrimento moral; se, quando se designam esses sofrimentos, não se passa nele qualquer coisa de análogo ao que acontece quando lhe falam de grandes sofrimentos físicos – recordam-lhe as suas dores de dentes ou de estômago. Parece-me que a maior parte das pessoas é assim que sente. Já ninguém é treinado no sofrimento, nem físico nem moral, ninguém vê uma pessoa sofrer a não ser muito raramente; do que resulta uma consequência muito importante: é a de que se odeia agora o sofrimento mais do que antigamente, que dele se diz mais mal do que nunca, e que se vai mesmo ao ponto de já nem sequer se lhe poder suportar a idéia: disso se faz uma questão de consciência e uma censura à existência, na sua totalidade. A floração de filosofias pessimistas não é de forma alguma indício de terríveis sofrimentos; muito pelo contrário, fazem-se estas interrogações sobre o valor geral da vida em épocas em que o conforto e a facilidade acham já cruéis, demasiado sangrentas, as pequenas picadelas de mosquitos que não se podem evitar nem ao corpo nem à alma e quereriam, na penúria de autênticas experiências dolorosas, fazer aparecer a imaginação do suplício como um sofrimento de espécie superior.
Haveria realmente um remédio a indicar contra as filosofias pessimistas e o excesso de sensibilidade que me parece ser a verdadeira 'miséria dos tempos presentes',... mas talvez esta receita parecesse demasiado cruel; haviam de a classificar sem dúvida nenhuma no número dos sintomas em que se baseiam agora pra considerar que 'a vida é um mal'. Seja! O remédio contra a 'miséria' chama-se – miséria."
(NIETZSCHE. A Gaia Ciência. Aforismo 48. Lisboa: Guimarães Editores, 1984. p. 78-80)
1.8.07
Hábitos de alienados ou de quem não vê horizontes?
Pedaço do depoimento de Wanderley da Cunha, morador da Favela de Acari, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde frequentemente há troca de tiros entre policiais e bandidos. Wanderley é animador cultural e integra a Rede Contra a Violência, que organiza moradores de bairros proletários:
"As pessoas não acreditam que alguma coisa possa mudar. Então as pessoas acabam se acostumando. A grande maioria fica habituada, se preparando para toda semana saber que alguém morreu. Quando a gente chama para participar de reunião da campanha contra o Caveirão, as pessoas não vão, têm medo de sofrer represália da polícia. As pessoas nem acreditam mais em eleição, em política. As pessoas não acreditam. Agora, você vê nos olhos das pessoas, no humor delas, achando que elas estão acostumadas, mas não estão. As pessoas cada vez mais sofrem. E aí, as pessoas cada vez mais bebem, e quanto mais sofrem, mais procuram baile funk, pagode, consomem drogas, que é uma maneira de segurar a onda um pouco. As pessoas estão cada vez mais desesperadas, desesperançadas. É uma desesperança contida, que fica dentro das pessoas e acaba explodindo muitas vezes na violência, mas nunca dirigida contra quem está causando o verdadeiro sofrimento para a gente". (fonte: http://www.anovademocracia.com.br/35/10.htm)
"As pessoas não acreditam que alguma coisa possa mudar. Então as pessoas acabam se acostumando. A grande maioria fica habituada, se preparando para toda semana saber que alguém morreu. Quando a gente chama para participar de reunião da campanha contra o Caveirão, as pessoas não vão, têm medo de sofrer represália da polícia. As pessoas nem acreditam mais em eleição, em política. As pessoas não acreditam. Agora, você vê nos olhos das pessoas, no humor delas, achando que elas estão acostumadas, mas não estão. As pessoas cada vez mais sofrem. E aí, as pessoas cada vez mais bebem, e quanto mais sofrem, mais procuram baile funk, pagode, consomem drogas, que é uma maneira de segurar a onda um pouco. As pessoas estão cada vez mais desesperadas, desesperançadas. É uma desesperança contida, que fica dentro das pessoas e acaba explodindo muitas vezes na violência, mas nunca dirigida contra quem está causando o verdadeiro sofrimento para a gente". (fonte: http://www.anovademocracia.com.br/35/10.htm)
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