18.9.07

Notas autobiográficas de alguém que não existe

Já era um homem velho há muito tempo. Um espírito nebuloso dificultava sua visão, tornando-o quase um cego com visão perfeita. E sempre insatisfeito. Vivenciou tantas coisas em sua vida. Apesar da pouca idade – recém completara 27 anos – era um rapaz experimentado e pouco afeito, agora, às novas experiências.
Optou esta noite por mais uma volta nas ruas escuras de sua cidade. Bares repletos de homens vazios, já dizia o poeta. Sentou-se para uma cerveja, num desses butecos típicos, longe dos bares mais badalados. Sentia-se tremendamente só. Sim, vivia um memento tenso. Tão tenso que usava freqüentemente advérbios: toda frase, inequivocamente, levaria um.
Fora deixado por todos os que mais considerava seus amigos. Os amigos se foram, as mulheres se foram, a família tão distante, o copo vazio. “Garçon, mais uma!”: essas foram as primeiras palavras ditas nas últimas oito horas. É possível ficar tanto tempo calado, principalmente depois que se aprende a responder – ou se contenta em responder – aos outros com simples gestos de cabeça. Desiludido! Os amigos criam uma ilusão fácil de perenidade. Toda moça linda cria uma sensação de eterno. Por isso tudo é tão belo! Não estava mais pronto para falar, ter intimidade, com alguém. Não queria. A solidão já era para ele uma escolha. Não se sentia bem para querer beber, mas bebia para relativizar o amargor.
Mas não sabia mais o que era sofrer. Aprendeu a observar as coisas em sua naturalidade. Sentia certo amargor, mas não dor nem desespero. Aprendeu a viver. O dinheiro era pouco, e tão óbvio quanto isso era a vontade (e a necessidade) de usá-lo para beber. Só, meio amargo, mas nunca vazio. Enquanto não fala, sua voz interior da voltas tremendas, cruzando do céu ao inferno, com paradas em lugares só aparentemente impossíveis de se chegar. É um ermitão e um andarilho, e isso também em sua cabeça. O movimento é a marca desse sujeito. Sim, é um sujeitado pela vida. Mas alguém que procura brechas para virar agente. Vê tudo isso como belo. Esse amargor, que não é dor, recobre tudo como a geada na grama, como neblina numa manhã fria: nada se vê, mas se sabe que está lá. O que está lá, como, com qual forma? É o Mistério. Talvez o Mistério da vida mesmo... riu-se de si mesmo. Que bonito é isso de rir de si mesmo, de não se levar a sério, ver as coisas com olhos leves, espírito quase sapeca, meio contemplativo, meio criança... sua família se foi, seu emprego se foi, tudo se foi. Hoje tem mais de oito horas do seu dia roubados em troca de um pouco de pão e cerveja. Mas isso não o incomoda tanto. Ama muito a si, mas esses longos tempos de solidão são duros. Mas sabe que foi nesses longos, e não poucos, tempos de solidão que descobriu grandes coisas de sua pequena vida, vivenciando neles, de vez em quando, talvez o próprio Mistério. Qual o sentido de tudo? Ele não sabia responder, mas tocou o telefone. Ele já sabia: era ela! Tantas vezes sumida, tantas vezes ressurgida. Essas fugidias moças, que nos amargam na fuga, nos embriagam na volta. Tentar reproduzir, em palavras, o que sentiu nos momentos seguintes é o mesmo que tentar guardar, na eternidade, uma flor de primavera entre as páginas de um livro. Há coisas que só são belas por sua efemeridade. A textura e o espinho não se conservam no tempo. Sabia que estando com ela não deixaria de estar só, mas o perfume da rosa ia embaralhar sua percepção por um instante.
Na janela do apartamento dela havia aquela luz habitual. Seria uma noite bonita, acontecesse o que acontecesse.

4.9.07

Liberdade, desejo típico de escravo

Quem nunca sentiu que estava perto da morte? Aquela sensação angustiante de que tudo o que há pode chegar ao fim, ir por água abaixo?
Essa é uma sensação que me vem com certa freqüência... e é quando tudo faz sentido! Se se pensar os mil condicionantes e determinantes que na história possibilitaram o mundo atual e o meu nascimento, se se pensar tudo que vivi, de bom, de “hostil” e de mal – que, no final, é quase tudo bom –, então se chega à conclusão: é tudo um grande dom do acaso e da história! E assim como o recebemos, assim nos será retirado, o que nos exige aproveitar seus pequenos sabores – e disabores!
A sensação de morte traz sentido à vida: toda obrigação, tristeza e peso de viver parecem quase evanescer diante do nada da morte... e só então um raro – e indiscreto – gostinho de liberdade nos vem à língua.
Qual seriam as últimas coisas que você faria se soubesse que está para morrer logo? (pergunta clichê, eu sei, mas necessária). Normalmente, a resposta dada se resume a uma boa orgia, ou pelo menos uma sacanagem com aquela menina específica (e quem sabe até especial!).
Pois bem, e no caso de se receber a notícia do fim bem no meio da rua, sozinho, sem um puto pila no bolso, celular sem crédito, etc.? Nada de orgia! Quem sabe o desconforto, quase desespero, de perder tudo que tem na vida! O perigo de encontrar o diabo – e pior ainda. Deus! –, lá do outro lado, depois de uma vida inconforme!
MAS de que adianta esse medo diante do que não se conhece? Sócrates, em sua apologia escrita por Platão, diria que ter medo do desconhecido (no caso, o que vem depois de morrer) não passa de pura arrogância.
Basta parar para sentir o corpo relativamente saudável, lembrar os bons amigos que se fizeram no dia-a-dia, a família, os amores... o sol quente... e mesmo o ar poluído da avenida Ipiranga. Nesse momento incompreensível, em que tudo na vida corre o risco de ser perdido (como se nós tivéssemos, de fato, alguma coisa), é que podemos separar o joio do trigo, separar aquilo que dá algum sentido à vida daquilo que fazemos por força de obrigações... aí então, como que sem o peso da muita tralha que carregamos todo dia conosco (trabalho, desentendimentos familiares, bestas obrigações ditas morais, etc.), vem aquela sensaçãozinha de “livre” – “que diferença faz tudo isso pra mim”, seguido de um sorriso muito arejado.
A sensação de morte liberta, nem que seja por um curto tempo, mas liberta.

31.8.07

Descobri dois blogs com relação de blogs de música. Vale a pena conferir:

Feijão Tropeiro

Nau Pirata

30.8.07

"Nota sobre educação" ou, "o ser humano é, necessariamente, um animal"

A função da escola e da educação não é transformar um animalzinho em gente civilizada. Isso é mito, e o que se consegue por meio disso são amputações. O desafio da educação é fazer do animalzinho do educando um animalzinho ruminante, quer dizer, um pensador, quer dizer, alguém que pare para pensar. Parar para ruminar: isso sim, uma educação a base de regorgito e (re)mastigação.

23.8.07

Blog sobre economia

Opa!
Descobri mais um blog português, agora sobre economia. Não sei qual a inclinação do cara. Mas mesmo sendo neo-liberal, vale a pena conferir:

Pura economia

Vale conferir este texto sobre crescimento e entropia, principalmente pra quem está agora estudando a revolução industrial.

21.8.07

E vamos fazer a revolução!

“Vamos fazer a revolução! Que as massas proletárias urbanas e rurais tomem consciência de sua situação de explorados e, juntos, lutem pela igualdade entre os homens e os povos!”

Só resta uma pergunta: qual é o caráter revolucionário dessa proposição? Getúlio Vargas discursava com os mesmos pontos.

Para início de conversa, massa é coisa de padeiro. E enquanto esquerdistas, pró-esquerdistas e grupos de esquerda não desistirem dessa pretensão de serem padeiros, de quererem moldar a massa, a lógica dominante vai permanecer: a vontade de usar da maioria "amorfa" e reificada para cumprir a vontade de poucos. Vargas queria conduzir a povo para uma sociedade melhor – e tivemos um governo autoritário pacas. Os comunistas de 1917 queriam conduzir as massas pruma sociedade melhor, socialista – e tivemos, por fim, a ditadura do partido que oprimiu o proletariado soviético.


Enquanto as pessoas não tiverem condições e relativa liberdade pra decidirem o que realmente querem, não haverá sociedade melhor. Quando falo de condições, falo de oportunidades que estimulem o processo de autonomia, como, por exemplo, uma escola de qualidade preocupada com a formação do raciocínio crítico d seus educandos. Quando falo em relativa liberdade, me refiro a que as pessoas possam escolher o que elas acham melhor - mesmo, sei lá, que seja se decidir por aquele liberalismo tosco de neo-liberal - sem ter um intelectual de merda do lado delas pra dizer: “Ah, mas tu é um alienado, hein?!”.

E isso cabe muito bem para os (futuros) professores, que não sejam arrogantes de se decepcionarem pelo fato de que os educandos não prestem atenção em aulas pouco interessantes e pouco significativas. Quem disse que o saber acadêmico e super refinado de vocês têm doçura (ou mesmo acidez) a ponto de provocar a atenção dos educandos? (sim, isso estou dizendo pra mim mesmo).

E, pra fechar, citando o Raul Seixas: “A lei do forte, essa é a nossa lei e a alegria do mundo!”

20.8.07

Problemas epistemológicos

Uma das maiores dificuldades que tenho - ou melhor, temos - para analisar a sociedade e o mundo é o nosso eurocentrismo arraigado ou outras formas de centrismos em que há um centro poderoso rodeado de coadjuvantes, nos qual nós somos os coadjuvantes. Vide termos como "subdesenvolvido", "terceiro mundo", "pré-colonial", "antes de Colombo", "pré-história" (que significa "pré-escrita"), "pré-revolução industrial", entre outros. Não digo que esses processos, fenômenos, não são importantes. Claro que são. Mas toda análise se pauta a partir desse Outro situado do outro lado do oceano ou do sistema produtivo.
É necessário partir não desse Outro, mas do nosso próprio umbigo. Sem essa transformação epistemológica de mudança de ponto de partida, vamos continuar tão míopes como se não estudassemos/pensassemos nada. Só esse pluralismo racial, étnico, geográfico, econômico, etc., que poderá tornar nosso sistema ocular mais complexo e menos cego.
Como bem lembram muitos intelectuais, como José Augusto dos Anjos e outro, que não me recordo o nome, precisamos cortar o cordão umbilical com a Europa, com seus intelectuais que refletem sua própria realidade, e fazermos o esforço político de encontrar outras fontes no globo, entre pensadores pouco ou não conhecidos, que discutam assuntos parecidos, mas com o enfoque não-hegemônico, distinto da situação européia.

Vai chover? E daí?

Há um oceano de prata nas nossas cabeças hoje, dia nublado. Pra quem está a vagar no mar, há um mar azul ao chão e um outro, cinza, no céu. Isso me lembra o livro mais soberbo (soberbo me parece um nome bem apropriado) que já li: Os Trabalhadores do Mar, do Vitor Hugo. Os aforismos nessa obra são muitos e muito bons. Por exemplo, este aqui.
Inclusive, tenho a impressão que o Gilliat é quase uma aproximação do para-além-do-homem (ou super-homem) pretendido pelo Niet.

17.8.07

'Fiz o que achava que era certo', disse aos seus amigos

Simples triste calado na parada olhava tranqüilo a moça bonita de verde que passava. Caiu das mãos da dama algo que não pôde definir devido às poucas luzes da noite. Apressado e gentil, correu para catar o objeto e devolvê-lo a sua desatenta dona. Não atentou, entretanto, a pedra no meio do caminho - havia uma pedra no meio do caminho! Mais exatamente, um lage da passarela deslocada. Sua boca conheceu o gosto da lage com a mesma intensidade - e dor - que o dedo do pé que chocou contra a pedra, ambos vertendo lágrimas de sangue. Mas destino pior teve seu caro óculos, que não foi barato na ótica. Mesmo miope, olhando adiante, pode ver as lentes quebradas, com a armação próxima ao seu objetivo: uma embalagem vazia de cigarros que a porca da sua dona havia jogado no chão.

9.8.07

Os perdidos se encontram!

8.8.07

"E essa 'mina' que não me esquece..."

- Sabe a Josi? Bah velho, que 'mina' imbecil! Não dá pra entender? Encontrei com ela 'ontiontem' e fomos tomar um café. 'Tava meio quase um climinha no ar. Daí ela me perguntou da Paula, curiosa. Como e onde a gente se conheceu, se eu curtia ela e tudo mais. Eu só disse que eramos colegas do curso, que achava a guria tri e era só. Só amigos. Ah, meu, que mina palha! Como é que eu curti essa traste? Me some por dois dias, me dá um fora fudido, devolve os presentes que eu dei pra ela - inclusive o de quatro meses de namoro - e depois vem bancar a de ciumenta. Vá se fudê! Mas tenho a leve impressão que ela ainda é afim de mim... (solta um leve suspiro de esperança, seguido de um sorrisinho maroto).

- Alô? Oi Paulinha!, é a Josi, a ex-namorada do Renato. Te lembra de mim? Tudo bem? Sim, comigo tudo tri. Pois é, tens alguma coisa marcada pra esse fim de semana? É que consegui dois ingressos prum cinema. 'Tás afim?

3.8.07

Conhecimento da miséria

"Talvez nada separe já as pessoas e as épocas a não ser o seu grau de conhecimento da miséria: tanto a da alma como a do corpo. No que se refere a esta última, talvez nós, homens de hoje, apesar de todas as nossas fraquezas e de nossas enfermidades, sejamos ignorantes e fantasistas, por falta de experiência pessoal, a experiência que teve a idade do medo - o mais demorado período da história - quando o indivíduo devia proteger-se por si próprio contra a violência e tornar-se a si próprio, para esse fim, um violento. Nessa época o homem fazia uma copiosa aprendizagem do sofrimento físico e da privação; via até no exercício de uma certa crueldade para consigo mesmo e no sofrimento voluntário, um meio necessário à sua conservação; treinava-se então o seu meio a saber suportar o mal, acrescentando-o até de bom grado, e viam-se os piores suplícios dos outros sem experimentar outro sentimento que não fosse o da própria segurança.
Quanto à miséria da alma, continuo a examinar agora se aquele que dela fala a conhece por experiência ou por leitura; se julga ser necessário, por exemplo, simular o conhecimento desta miséria, para testemunhar uma certa cultura, ou se o imo da sua alma se recusa a acreditar em bloco em todo e qualquer sofrimento moral; se, quando se designam esses sofrimentos, não se passa nele qualquer coisa de análogo ao que acontece quando lhe falam de grandes sofrimentos físicos – recordam-lhe as suas dores de dentes ou de estômago. Parece-me que a maior parte das pessoas é assim que sente. Já ninguém é treinado no sofrimento, nem físico nem moral, ninguém vê uma pessoa sofrer a não ser muito raramente; do que resulta uma consequência muito importante: é a de que se odeia agora o sofrimento mais do que antigamente, que dele se diz mais mal do que nunca, e que se vai mesmo ao ponto de já nem sequer se lhe poder suportar a idéia: disso se faz uma questão de consciência e uma censura à existência, na sua totalidade. A floração de filosofias pessimistas não é de forma alguma indício de terríveis sofrimentos; muito pelo contrário, fazem-se estas interrogações sobre o valor geral da vida em épocas em que o conforto e a facilidade acham já cruéis, demasiado sangrentas, as pequenas picadelas de mosquitos que não se podem evitar nem ao corpo nem à alma e quereriam, na penúria de autênticas experiências dolorosas, fazer aparecer a imaginação do suplício como um sofrimento de espécie superior.
Haveria realmente um remédio a indicar contra as filosofias pessimistas e o excesso de sensibilidade que me parece ser a verdadeira 'miséria dos tempos presentes',... mas talvez esta receita parecesse demasiado cruel; haviam de a classificar sem dúvida nenhuma no número dos sintomas em que se baseiam agora pra considerar que 'a vida é um mal'. Seja! O remédio contra a 'miséria' chama-se – miséria."
(NIETZSCHE. A Gaia Ciência. Aforismo 48. Lisboa: Guimarães Editores, 1984. p. 78-80)

1.8.07

Hábitos de alienados ou de quem não vê horizontes?

Pedaço do depoimento de Wanderley da Cunha, morador da Favela de Acari, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde frequentemente há troca de tiros entre policiais e bandidos. Wanderley é animador cultural e integra a Rede Contra a Violência, que organiza moradores de bairros proletários:

"As pessoas não acreditam que alguma coisa possa mudar. Então as pessoas acabam se acostumando. A grande maioria fica habituada, se preparando para toda semana saber que alguém morreu. Quando a gente chama para participar de reunião da campanha contra o Caveirão, as pessoas não vão, têm medo de sofrer represália da polícia. As pessoas nem acreditam mais em eleição, em política. As pessoas não acreditam. Agora, você vê nos olhos das pessoas, no humor delas, achando que elas estão acostumadas, mas não estão. As pessoas cada vez mais sofrem. E aí, as pessoas cada vez mais bebem, e quanto mais sofrem, mais procuram baile funk, pagode, consomem drogas, que é uma maneira de segurar a onda um pouco. As pessoas estão cada vez mais desesperadas, desesperançadas. É uma desesperança contida, que fica dentro das pessoas e acaba explodindo muitas vezes na violência, mas nunca dirigida contra quem está causando o verdadeiro sofrimento para a gente". (fonte:
http://www.anovademocracia.com.br/35/10.htm)

27.7.07

Talvez, talvez, a resposta de tudo tudo tudo esteja na - Beleza

Como assim? Beleza, quero dizer, quer dizer, prazer, embevecimento, devotamento, volúpia, essa sensação inexplicável, balançante, desestruturante e, não paradoxalmente, extruturante.

Há imagens sempre e sempre tão belas, aprazíveis. Viva o que se viver, faça o que se fizer, ela ainda vai estar lá, parada em sua mente, linda, sorridente, mesmo que os anos tenham se passado e essa imagem já há muito não correspondam ao objeto que provocou a imagem na nossa cabeça. Isso é Beleza?!

Ah, dos momentos tristes, em que me vi meio aflito, só de ti ver em mim, ver o que tu é pra mim, apesar do tempo, apesar dos rumos da vida, apesar dos rumos de um dos meus eus, apesar dos rumos de outro dos meus eus. Apesar do rumo difuso e confuso dos teus eus, que eu sei não são mais confusos que os meus.

Acho que em tudo na vida se ve a vontade incomoda de querer ser perturbadi, abalado, sacudido, derretido por esse belo-quente que não é passado, mas presente, e muito presente, na minha mente, na minha vida, no mais íntimo de mim

Moça, eu não te amo... tu não merece nem um pouco de amor de alguém,
é a que mais mereceria teu próprio amor. Enquanto não te amares, vais viver de sombras e sentimentos venenozos.
Tens prazeres neles? Vive, mas vais viver embriagada nos teus sonhos, morrendo nos teus venenos, sua intoxicada!
Mas tu, em mim, não é sonho, é a presença constante real dura de ti em mim
Essa minha risada insentida, essa pequena dureza de coração, com a qual resisto pequenas hostilidade do dia a dia, me fazem feliz. Se hoje me sinto um cara feliz, bom e um pouquinho forte.
Isso é pq tu me fez um pouco triste. Pq me fizeste chorar.

eu te amo
nada nada vai fazer mudar essa presença incômoda de ti em mim... essa tua presença real e incômoda. Tu não é nada além do que te conheço

sim

eu, por não te conhecer, te conheço tão bem como tu não te conhece

sim, sei que sou arrogante e possivelmente equivocado

mas tu nunca passas despercebida

24.7.07

O refinamento do amor

Talvez a forma mais refinada de amor seja aquela em que não se quer mais nada.

20.7.07

Um dia de alegria!

Pois é, morreu o maior capitão donatário que o Brasil conheceu! Clique aqui.
:)

Nessas horas gostaria que, de fato, existisse o deus cristão para fuder com esse filho duma puta. Quem me dera (quando eu fosse pro inferno) ver esse merda pagando os pecados. Imagino as penas que o diabo lhe infligiria... sei lá, tipo, enchendo o bolso dele de notas de 1 real, fazendo ele comer nos bandejões do inferno hahahahahahaha...

tem um texto bacana no cmi: ACM - Uma Trajetória da Ânsia Humana pelo Poder, e na Carta Maior: Com ACM, morre o coronelismo?

bom, chega de divagação, o importante é que já foi tarde!

Blog descoberto por acaso

Tava tentando descobrir o significado duma palavra e acabei descobrindo o blog Egotismo. Bastante legal!

13.7.07

Texto sem sentido (definido)

Quem não sente que vive num mundo-fragmento? Me explico. Aquela sensação de ser um peixe fora d'água que, apesar dos amigos, famíla e conhecidos em geral, nos faz sentir deslocados a respeito do Mundo. Um mundo quase sem sentido, numa sensação de ilha sozinha no oceano. Talvez até tivesse um sentido se, ou me visse numa religião (com centro/sentido em deus-outro mundo), num partido (com centro/sentido na revolução) ou engajado no sistema (com centro/sentido no ter-parecer). Mas partindo desses três centros/sentidos, percebe-se que o mundo (enquanto sentido) é fruto de criação-imposição-recriação: os sentidos são (re)construídos e nos constroem na história. Nessa quase falta de sentido, o que resta é a construção de sentido, o que, convenhamos, não é nada fácil. Basta pensar na quantidade de niilistas na literatura desde, sei lá, fins do XIX, para se ter idéia de quantos não se atrevem ou não tem por onde, como ou porquê começar essa obra.
Nem sei o porquê de escrever isso. Sei lá, por que querer vidinha de professor de colégio público, ganhando pouco, vivendo cheio de bombas, com riscos sérios de agressões físicas? Por que não tentar me engajar no sistema, querer ganhar grana afú para levar uma vida in? Às vezes tenho quase uma certeza que vou me vender quando ficar mais velho. Isso que escrevo deve ser quase uma profecia. Mas muito bem baseada: quase todos se vendem ou acabam por se desiludir com algo - muitos mesmo caindo no niilismo.
E o que resta? Acho que só se agarrar aos princípios e viver uma vida em paz consigo. Viver uma vida em paz consigo por se agarrar aos princípios. Ética é uma palavra complicada. Normalmente está associada a algum imperativo, seja religioso ou filosófico. Deus manda ser bom... a Razão manda ser bom. Pro inferno com isso! E quem não acredita nem em deus e nem na razão? Por quê ser bom e reto? Por quê não ser egocêntrico, mesquinho e bem malvado - não é divertido estar por cima e pisar nos fracos?
Eís o grande risco de se tentar demolir com Deus ou com a Razão assim, à porra loca. Joga-se o bebê junto com a água do banho. Toda uma série de valores e práticas muito boas são colocadas como ruins porque associadas ao que se quer destruir, no caso, Deus ou a Razão. Não esqueçamos: quem jogou a ética e o bom de lado (sem necessariamente se desfazer de deus ou da razão) hoje não joga bomba em sociedades do Oriente Médio, não submete crianças à trabalho mega-explorador na China, não espanca trabalhadora pobre e negra em parada de ônibus? E mais ainda, quem não gostaria de, por exemplo, ao deixar cair o celular sem notar, ter alguém que pegue o objeto caído e o devolva com toda a gentileza, sem querer retribuição devolta?
Niet já deu uma boa orientação. A moral nobre não valoriza o útil, o benéfico, mas voloriza o que lhe é bom, o que acha belo, o que lhe faz sentir em paz e em regozijo consigo. Inclusive, o que é bom não é necessariamente associado com o útil. Devolver o celular de alguém sem pedir nada em troca não tem utilidade alguma, mas a sensação de ter feito a alguém o que gostaria que lhe fizessem é muito boa. E isso é o bom: tudo que acho bom para mim é o bom e é o que deve ser feito. Talvez quase por uma questão puramente estética, algo de curtir a ação. E não cometamos o erro de separar o sujeito da ação. Sujeito e ação são a mesma coisa.
Pois bem, posso não querer a crença de Jesus, mas nos evangelhos certamente existem ótimos indicativos de coisas nobres, assim como o há em Marx e Niet, por exemplo. A destruição porra-loca pode não passar de pura destruição. É só ação em negativo: coisa plebéia por excelência! A destruição positiva é não a destruição, mas construção: é uma construção que exige a destruição de algo. Isso é ação positiva.
O mundo hoje pode parecer não ter sentido, mas a preservação da vida é necessária para que a construção de sentido possa, quem sabe, ocorrer. Tudo pode parecer ruim, mal, hostil... mas quem garante o amanhã? Lembremos do que disse são Paulo: "Depois da tempestade vem a bonanza." Isso é o que chamo de imperativo de vida. A vida tem de ser mantida sem necessidade de explicações, quase como uma ordem. Deprimidos, angustiados, niilistas, desenganados do mundo: aguentem!, não joguem suas vidas fora por viver num mal momento. (sim eu sei, escrevo isso para mim mesmo para quando eu estiver mal).
Quando disse texto sem sentido, usei sentido no duplo sentido, de direção e de significado. Mas não que não tenha sentido, mas que não tem sentido (direção e significado) definido agora. É algo em curso ainda, meio sem saber por onde nem para qual lugar. É algo que vai. Quem sabe amanhã não terá algo mais definido?

6.7.07

Dilema: votar ou não votar?

Um dilema: votar ou não votar no pessoal do P-Sol?
Comecemos pelo começo. Detesto cada vez mais a forma boçal de boa parte dos comunistas que conheço. Evidentemente, alguns desses comunistas são pessoas por quem tenho bastante apreço, além de respeito pelas (boas) idéias. No entanto, a grande maioria é tomada pela arrogância insuportável do "visionário" que se acha no "dever" de conduzir os outros no bom caminho, revelando-lhes as verdades acessíveis somente por meio da cartilha do Partido. Quem nunca ouviu: "vamos juntar o proletariado e a pequena burguesia urbana no combate à burguesia para, assim, construir um mundo mais feliz", ou coisas do tipo?
Sua lógica política, inclusive, é mais insuportável ainda. Baseados num centralismo ferrenho, acreditam que a única forma racional de conduzir um movimento é a organização de uma cúpula dirigente que oriente as bases, as quais levantam a mão na hora da assembléia – o momento “democrático” por excelência – de forma a aprovar ou não o que foi definido de cima. E coitado de quem ouse duvidar dessa democracia! Se você não agüentar só levantar o braço para concordar/ discordar e se levantar para questionar a forma como as coisas estão sendo gestionadas, pronto!, você acaba de virar o mais novo fascista que deseja dividir a assembléia, um anti-democrata escancarado! O que eles desejam é mais ou menos o que Jesus deseja: que as ovelhas somente sigam o pastor. Nietzsche já havia alertado: entramos na época dos rebanhos!
Pois bem, apesar de tudo isso, o papel desses partidos socialistas/comunistas é fundamental. Já que o Estado é um espaço de confronto (e não um simples mecanismo monstruoso que cegamente serve à burguesia), a importância desses partidos é que são as únicas agremiações questionadoras do sistema que se dedicam a entrar nesse espaço, o que, por vezes, conseguem. São, talvez, umas das poucas vozes que contestam a voz da grande maioria da politicalha nas câmaras de vereadores e no Senado. Quantas conquistas na política não se devem ao Partido Comunista Brasileiro, ao Partido Comunista do Brasil e a outros mais?
Mas para entrar no Estado encontraram na lógica pastor-rebanho (lideranças-base) a melhor forma de angariar votos e adeptos... em política, em geral, é mais fácil arrebanhar pelo sentimento do que pela razão. Pois bem, justamente pela sua lógica sentimentalóide pastor-ovelhas é que acabam contribuindo muito para o não processo de formação da autonomia de diferentes indivíduos. Como alguém vai ter um pensamento mais independente se não somente só lê os marxistas, como acredita que qualquer coisa para além dos marxismos é cultura burguesa?
A questão é a seguinte: se voto nos socialistas, contribuo pra que grupos contestadores tomem os espaços institucionais próprios para constituição do País. No entanto, se votar neles, acabo contribuindo para uma lógica que não privilegia o ideal iluminista de esclarecimento individual, ao dedicarem-se esses partidos em conquistar corações por frases feitas e reivindicações clichês – necessidade própria da publicidade.
Pois é, e aí?