9.7.09

Minha escrita é previsível.

4.7.09

O franguinho da Sadia, sempre sorridente

No mundo cristão-"ocidental", a vida política e econômia foi sempre sensível à moral cristã. Geralmente, no sentido de ter sua dinâmica e força redirecionada ou aumentada. A violência feudal foi enviada para o mundo islâmico, com a promulgação da Paz de Deus e da Trégua de Deus. Sem elas, não haveriam Cruzadas.

Além disso, sem a ética protestante, a Inglaterra possivelmente não teria inventado o capitalismo.

Por mais religiosas que as Cruzadas e a ética protestante fossem, não eram cristãs em sentido restrito e original. Mas, ainda assim, a moral cristã era o elemento que lhes dava sentido e legitimidade.

Hoje, o capitalismo e as políticas estatais são laicas. Mas se utilizam dos rebentos modernos da moral cristã - a moral humanitária e a moral ecológica - como importantes instrumentos ideológicos.

A França, se não me engano, está entre os países que condenaram a Coréia do Norte por ter dado início à produção de material nuclear. Seu presidente, Sarkozy, anunciou que a França será o primeiro país a começar a campanha do desarmento, com a interrupção da produção de materiais de fissão explosivos e com o fim de testes nucleares. É engraçado, pois defendem o desarmamento atômico com um stock de 300 ogivas nucleares! Veja a notícia aqui.

A Wal-Mart entrou na campanha de substituição de sacolas de plástico pelas de pano. É uma empresa bem ecológica. Só espero que o próximo passo seja diminuir a quantidade de luz pra manter o Big ligado. E deixar seus funcionários estadunidenses se sindicalizarem.

Os termos politicamente corretos são símbolos de legitimiação muito disputados pelas grandes forças. A moral, seja ela qual for, é sempre necessária para pronunciamentos oficiais e propaganda. Seja para pôr um selo de garantia numa embalagem de gordura vegetal hidrogenada (basta dar uma olhada em revistas da década de 1970, como a Cruzeiro) ou para aplicar medidas nazistas à população "terrorista" palestina.

23.6.09

Questão de classe


Ouçam a nossa voz!


22/06/2009

Nós, professoras e professores da Escola Estadual de Ensino Fundamental Porto Alegre, localizada em Porto Alegre, Morro Santana, que atendemos 800 alunos – em sua grande maioria carentes – da educação infantil à oitava série do ensino fundamental, resolvemos abrir nosso coração e dividir com vocês algumas coisas que muito têm nos incomodado com relação aos (des) caminhos da Educação do RS.

Através deste documento, gostaríamos de tornar públicos nossos sentimentos em relação às mudanças que estão sendo veiculadas sobre nosso Plano de Carreira. Essas mudanças, do nosso ponto de vista, não têm por objetivo a melhoria da Educação Pública do RS, e sim, de transformar a escola em uma empresa. O objetivo de uma empresa é gerar lucros. O objetivo de uma escola pública é gerar cidadãos conscientes, capazes de interferir em suas realidades para transformar o mundo em um local mais fraterno, justo e humano. Isso não pode ser medido com números e índices de pesquisas.

Queremos manifestar nossa indignação não apenas com nosso baixo salário, pois este fato já é bastante conhecido do público em geral. Estamos indignados com a falta de respeito com que somos tratados por este governo, representado pela Secretária de Educação do RS e seus cargos de confiança. Em reuniões, jornais, televisão, rádio, eventos, etc, somos achincalhados, humilhados, chamados de acomodados, de preguiçosos, de estagnados, somos mostrados como “um peso” no orçamento estadual, nossas aulas são chamadas de “medíocres”, nossa formação é colocada como insuficiente. Em entrevista para a imprensa, a secretária declarou que “merecemos apanhar dos alunos” simplesmente pelo fato de reclamarmos nossos direitos cada vez que sentimos que eles estão sendo atacados e por sermos uma categoria organizada. Há anos lutamos pela Educação. É graças ao nosso esforço – e somente a ele – que o Rio Grande do Sul ainda tem os melhores índices de Educação do país.

Enquanto o governo corta investimentos em educação, descumprindo a lei de aplicar 35% do orçamento do Estado em Educação Pública, nós continuamos acreditando no aluno e trabalhando.
Nossa escola mantém projetos como: “Navegar é preciso, nas ondas da Língua Portuguesa”, um projeto interdisciplinar sobre a Reforma Ortográfica. Desde 2000, realizamos atividades dentro do “Projeto Consciência Negra” durante todo o último trimestre. Há anos mantemos o projeto “Idade Média na História, na Literatura e no cinema”, e “Mitos e Heróis Gregos”. Este ano, estamos organizando o projeto “Educando para a Cidadania”, envolvendo os professores de Ensino Religioso. Temos diversos projetos na Educação Infantil e anos iniciais. As fotos e os projetos na íntegra estão em nosso blog (http://escolaportoalegre.blogspot.com) .

Sempre mantivemos reuniões pedagógicas, atendimento aos pais, gincanas culturais e esportivas, passeios culturais e de lazer, palestras e oficinas para a comunidade entre outras atividades. Investimos na apresentação e auto-estima dos alunos, promovendo recolhimento de roupas e calçados, livros paradidáticos, material escolar. Fazemos questão de organizar as formaturas dos alunos da Educação Infantil e da oitava série, celebrando-as como momentos únicos e um ritos de passagem fundamentais em nossa escola. Com todo esse trabalho e investimento pessoal do corpo docente, percebemos a mudança de postura e o crescimento de nossos alunos como pessoas e cidadãos.

Não gostaríamos de perder todas essas conquistas históricas e as vitórias que já alcançamos com nossa comunidade. Em nossa escola, temos uma marca muito forte de profissionalismo e compromisso. Buscamos formação permanentemente, levamos a sério nossas reuniões e projetos, vemos nosso papel como central na comunidade onde estamos inseridos. Porém, ultimamente, esse sentimento vem mudando... Nosso dia-a-dia tem sido tomado por colegas desestimulados, entristecidos, precarizados, buscando advogados para garantir seus direitos mínimos. Nunca ouvimos tanto a palavra “exoneração”, “cansaço”, “doença”, “dores”. Há colegas buscando ânimo até em medicamentos, travando uma luta pessoal contra o próprio desânimo e baixa auto-estima.

Pedimos sua ajuda para que esta situação não se torne ainda mais grave. Queremos ser ouvidos e respeitados, pois a grande maioria de vocês, nossos interlocutores, passou pela escola pública como educandos ou como educadores.

Pedimos que divulguem esse documento, repassem, deem sugestões e nos ajudem a encontrar saídas, lutando ao nosso lado.

ASSINADO: Professores da Escola de Ensino Fundamental Porto Alegre

Texto encontrado em: http://www.diariogauche.blogspot.com/

11.4.09

A desregulamentação é anti-liberal

O liberalismo não me traz desconfort0. Ele é o pai de todas as correntes políticas e econômicas modernas. Mesmo a idéia de desregulamentação do liberalismo radical é aceitável. O que trava na minha garganta é a defesa dessa desregulamentação num contexto de monopólio de muitos campos da economia por algumas poucas empresas. Retirar as limitações das grandes corporações econômicas é abrir a jaula dos leões. A defesa do liberalismo radical é razoável para aqueles que estão sob a tutela ou a serviço dos Gerdau ou dos Marinho. Do contrário, pode ser um ato estúpido. As pequenas e médias empresas correm perigo de serem engolidas ou perderem para uma concorrência desleal. Mais ainda, novas empresas ou iniciativas de grupos locais ficam fadadas ao sufocamento. Como montar uma rádio, por exemplo, com o controle das telecomunicações por meia dúzia de empresas midiáticas que obtiveram concessões públicas. Vou me arriscar a dizer que a desregulamentação, num contexto de monopolização de muitos setores da economia por poucos grupos, ainda mais num momento de crise, é uma atitude anti-liberal. Hoje, o que resta a maioria dos profissionais é ter que se empregar como funcionário dessas grandes empresas e se submeter a suas políticas. Que o digam os jornalistas e atores. Se o poderio destas mega-empresas é bastante limitador, mesmo com o controle existente do Estado, como seria se não existisse dito controle. A desregulamentação é o caminho da servidão.

9.4.09

Fé

Economia é religião. A liberdade de mercado quebrou o mundo financeiro. O Estado teve de intervir para restabelecer a economia. E, apesar de todas as evidências, os liberais não perderam a fé nas leis de mercado. Contra fé não há evidências.

28.3.09

O escrachado na história

No link a seguir, a aula de um professor gravada por um aluno. Possivelmente, num cursinho pré-vestibular.

Clique Aqui. O vídeo está no youtube.

O uso do humor, do deboche e da ironia na escrita da história são um deleite para o leitor ou ouvinte. Quem já leu Gilberto Freyre ou os escritos históricos de Marx ou Nietzsche entende o que estou dizendo. Contemporaneamente, por questões comerciais, os professores de cursinho pré-vestibular têm usado deste gênero narrativo para tornar suas aulas agradáveis. O professor de cursinho virou uma espécie de showman para vender seu produto: isso é o efeito do imperativo de mercado. A princípio, não há mal algum nisso, desde que os objetivos do ensinar história não sejam prejudicados. Objetivos estes que são, a meu ver, os de trabalhar conceitos históricos e historicizados e o de criar e refinar o sentido histórico, tal como o descreveu Frederico Nietzsche no seu livro Gaia Ciência, dos participantes da aula.

Vamos à aula do vídeo em questão. O professor é engraçado. Os alunos riem. O assunto da aula é a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Na boca do professor, todos os tópicos referentes a dita participação são motivos de deboche. A atuação da equipe médica no sul da França. A não atuação dos aviões brasileiros. O ataque, ou suposto ataque, de um submarino alemão. Pode-se até pensar que o professor tenha passado do ponto do deboche e chegado ao do escrachamento. Nas palavras dele: "Patético".

Eu ainda não havia feito leitura alguma sobre a participação brasileira na guerra. Por isso, recorri a Wikipedia. Encontrei este artigo aqui. Ao fim do mesmo, há uma relação de obras e outros endereços na rede sobre o assunto. Levanto algumas considerações.

Primeiro, em termos de factualidade, há alguns pontos que o artigo entrou em certo choque com a narrativa do professor. Os bandeides ao qual o professor se referiu foram, segundo o artigo, um socorro aos franceses atingidos pela gripe espanhola. Houve o ataque de um submarino alemão, segundo o artigo. E mesmo que não tivesse acontecido ataque algum, imagine-se a situação. Um monte de brasileiros, saídos de um país tropical, que talvez nunca houvesse pegado em arma, se vê em meio a uma Europa em guerra, correndo o perigo de assédio de submarino alemão. Qualquer movimentação estranha em água poderia ser sinal de perigo. Ou não? Se sim, se não, o que fazer?

Segundo, uma questão epistemológica. A narrativa histórica pretende, em último ponto, averiguar a veracidade de um enunciado ou indicativo histórico. Enunciado ou indício baseados em uma rede provas documentais. Assim, o historiador deve elaborar enunciados significativos ou apresentar indícios a partir da análise de fontes ou da citação e crítica de literatura secundária que já tenha trabalhado com fontes primárias. E o que fez o professor do vídeo senão ignorar essa pré-condição da disciplina histórica e cair no campo do julgamento moral. Para o professor, todos os militares engajados foram patéticos. Aviadores, médicos, soldados rasos, comandantes. Entrando no campo da moral acaba-se com a possibilidade de tentar entender o real-passado. Não houve questões táticas, apenas patetice.

Terceiro, uma questão moral. Putz! Imagina o soldado que lá estava, em plena Europa, quem sabe com frio, quem sabe com fome. Possivelmente, se perguntando o porquê de estar arriscando a vida por uma causa que não era sua. E aí, um professor de história simplesmente diz: patético! Isso é falta de respeito, pô!

Os professores de cursinho têm essa dificuldade diante de si, causada pelo imperativo de mercado: encontrar a linha que separa o humor e a ironia do escrachamento. Isso é muito difícil, principalmente com um público jovem ávido por diversão. Principalmente, devido a tremenda concorrência existente entre os professores nos estabelecimento de cursos pré-vestibulares. Aí que entra a questão para o professor, de se vender ou não ao sistema. Preparar boas aulas, quem sabe até divertidas, sem usar em clichês ou bobagens, ou apelar para imagens escrachadas e não-historicizadas por achar estas as melhores armas no jogo competitivo do mercado. O profissional ético não pode cair na tentação de se deixar levar pelo marketing à qualquer custo.

É um tom muito moralista o meu. Eu sei. Mas é uma pré-requisito profissional mínimo. Tem que ser comentado, explicitado. Se um dia meterem o dedo na minha cara por eu ter incorrido nesse tipo de prática e eu responder, simplesmente, "é a vida!", saibam que eu já virei um cínico. E que perdi o profissionalismo.

13.11.08

Mais um puxão de orelha do tio niet na fase positivista

A fé na embriaguez - Os seres de instantes sublimes e arrebatados, que habitualmente, por contraste e devido à própria dissipação de suas forças nervosas, sentem-se miseráveis e inconsolávis, vêem aqueles instantes como o autêntico "Eu", como "si"; e por isso pensam no seu ambiente, sua época, todo o seu mundo, com sentiments de vingança. A embriaguez é a verdadeira vida para eles, o genuíno Eu: em todo o resto vêem adversários e estorvadores da embriaguez, seja esta de natureza moral, intelectual, religiosa ou artística. A estes entusiásticos ébrios a humanidade deve muita coisa ruim: eles são infatigáveis semeadores da insatisfação consigo e com o próximo, do desprezo pela época e o mundo e, sobretudo, do cansaço do mundo. Todo um inferno de criminosos talvez não produzisse este inquietante e prolongado efeito opressivo, corruptor de ar e terra, como faz essa pequena e nobre comunidade de desenfreados, fantasistas e semidoidos, de gênios que não podem controlar-se, e que experimentam prazer consigo apenas quando se perdem totalmente: enquanto o criminoso, com freqüência, dá prova de excelente autodomínio, de abnegação e prudência, e sabe manter esses atributos naqueles que o temem. O céu acima da vida talvez se torne perigoso e sombrio por causa dele, mas o ar permance robusto e severo. - Além de tudo, esses entusiastas propagam a fé na embriaguez, com todas as suas forças, como no que há de vida na vida: uma crença terrível! Tal como agora os selvagens são rapidamente corrompidos e arruinados pela "água ardente", a humanidade como um todo foi corrompida, lenta e radicalmente, pelas aguardentes espirituais dos sentimentos inebriantes, e por aqueles que mantiveram vivo o anseio por eles: talvez ela ainda venha a se arruinar com isso.


(Nietzsche, Frederico. Aurora. Aforismo 50. São Paulo: Companhia das Letras, p. 44s.)

7.11.08

Ditos memoráveis de Leonardo Vigolo

Sim... diminuir riscos, esse é o lema,
sobre a prova de Antropologia e minha preguiça acadêmica.

Uma melancolia regada à asa,
sobre o ambiente do metrô, em São Paulo.

Um cover brasileiro de uma coisa babaca,
sobre High School Music Brasil

3.11.08

A revelação histórica

No século XVIII, havia a Real Feitoria de Linho-Cânhamo em São Leopoldo, na então Capitania do Rio Grande de São Pedro! A produção de linho-cânhamo era empresa "estatal"!! Mas não deu certo: parece que a escravaria queimou toda a produção!!! Até a última ponta!!!!

30.9.08

Entrevista do Silvio e do Vesgo com o Quico

Caralho, uma das melhores entrevistas que eu já vi. E o melhor tá pro final. Final sensacional!!!!!!!

Primeira parte, aqui.

Segunda parte, aqui.

21.9.08

O Pokemon é uma rinha de galos pra crianças.

20.9.08

Sobre o 20 de Setembro

Para ser sincero, nunca me incomodei muito com o tradicionalismo gaúcho. Esse gosto por andar de fantasia de gaúcho ou prenda pelas ruas da nossa urbe durante a semana farroupiha ou bailes dos CTG's; o discurso separacionista; o orgulho das virtudes meridionais em relação ao norte do país, isto é, tudo que está para cima de SC. Até gosto desses hábitos quando aparacem cenas risíveis, como a dos peões de apartamento que vão laçar bezerro nos CTG's. Tudo bem, né? Parece ser bem legal fazer parte de uma tradição inventada na década de 1930, no máximo.

Agora, não consigo tolerar de maneira alguma, em ponto nenhum, aquela musiquinha de nanar chamada Hino Sul-Riograndense. Nem preciso dizer o porquê. Já é do conhecimento de quase todos leitores deste blog - que, por sinal, são poucos... - seu significado mais latente: a glorificação de um dito passado heróico e moral de um povo diferenciado. E botam a criançada para aprender a cantar essa cantiga.

Cara, seria engraçadíssimo se não fosse nossa verdade. Se tudo isso fosse só mais uma historieta antiga de historiador. Mas não é. Aos alunos do ensino fundamental e médio obrigam perder 20 minutos diários para cantá-lo, além dos milhares de trabalhinhos obrigatórios nos quais se devem escrever o texto de cabo a rabo, ao longo dos mais 12 anos escolares. Inclusive nas aulas de educação física, deixava-se de correr ou jogar bola pra copiar esse hineto registrado na contracapa dos livros didáticos.

Caralho! Além de se referir à essa luta entre frações da elite como luta pela liberdade, ainda designa toda população escravizada como sem virtudes. Isto é, bem mais de um terço da população nacional, além de estar na condição de escravizada, ainda por cima não é digna nem de ser tomada enquanto possivelmente moral. É perfeitamente compreensível a produção do texto do hino. Foi escrito em 1935, em ocasião do centenário da Revolta Farroupilha, e adotado pelo Instituto Histórico Geográfico. Essa galera do IHGB, historiadores amadores e muito importantes em termos historiográficos, defensores das idéias raciais e evolutivas próprias de seu tempo.Segundo estes autores, haviam raças distintas e algumas eram mais puras e graduadas que outras. Convém lembrar, o nacional-socialismo do Hitler tomou o poder na Alemanha em 1933. Para aquela época, é compreensível que se pense isso. Mas hoje, num momento em que a situação desfavorável do negro é alvo de críticas e observações cada vez mais pertinentes, cantar o hino ou fazê-lo soar nos diversos espaços, sejam públicos ou privados, me parece, sem tirar nem pôr, uma prática racista. Tão desagradável quanto parte das músicas racistas e homofóbicas da geral do Grêmio.

Querem cantar. Cantem! Só fico imaginando o que pensam os patriótas quando me nego a tomar parte na cantoria.

9.9.08

A Ema gemeu,
no tronco do juremá...


- Ah, seu Jackson, isso me deu um medo danado!

2.9.08

Latifundiários, peões, Expointer e RBS

O axioma do Frantz Fanon, também dito pelo Paulo Freire, é sempre bom repetir: o dominado defende a ideologia do dominador.
No Jornal do Almoço dos dois últimos dias, vimos a reportagem sobre a ação do Ministério do Trabalho em proibir os peões de dormir junto aos animais, durante a Expointer. Foi ressaltado na reportagem a tristeza destes trabalhadores, em se verem impedidos de dar boa continuidade aos seus trabalhos. Foram mostradas algumas cenas, da estima dedicada por estes trabalhadores do campo aos animais, das jantas baseadas a boa churrascada e do clima de devoção total à lida do campo. Algo comovente. E não estou sendo sarcástico nem debochado. Algo do tipo: "maldito Estado que se intromete nas livres relações entre os homens".
Até que minha mãe fez seus comentários, enquanto eu apenas mastigava minha comida e ruminava pensamentos senis anti-mídia corporativos. Ela vem do interior, então conhece um pouco da situação. Segunda ela, esses trabalhadores ganham uma miséria, dormem pouco pra caralho, trabalham um monte e só vêem aquela churrascada na boca dos latifundiário donos dos bichos. E, por mais que pareça um paradoxo, ainda defendem os caras. Mas não é de graça.
É certo que boa parte destes trabalhadores deve se emputiar com o trabalho e a situação. Eu sei por conhecimento empírico, pois tenho parentes no interior, como já havia dito. Lá, Legislação Trabalhista é utopia. A galera trabalha o dia todo, do raiar a baixar do sol, sem arrego. Então, pra quem vive todo dia essa situção, uma semana de Expointer não é nada.
Bom, quanto à imprensa corporativa, não quero falar nada. Já está todo mundo cansado de saber do que eu iria falar. A construção da "verdade" é uma questão bem séria. Além disso, a ligação dessa emissora com os poderes instituídos é bem conhecida, especificamente com os poderes provindos do campo. Um exemplo, o cara do Anonymus Gourmet, que é neto do velho Pinheiro Machado, não por acaso nome de uma boa quantidade de ruas no Estado.
E os liberais ainda vêm chamar a Globo de comunista.
Mas chega de blábláblá anti-qualquer coisa. Temos mais o que se fazer do que ficar pensando na rbs

26.8.08

Como o vovô niet já dizia

"O homem de uma era de dissolução e de mestiçagem confusa, que leva no corpo uma herança de ascendência múltipla, isto é, impulsos e escalas de valor mais que contraditórios, que lutam entre si e raramente se dão trégua - esse homem das culturas tardias e das luzes veladas será, por via de regra, um homem bem fraco: sua aspiração mais profunda é que um dia tenha fim a guerra que ele é; a felicidade lhe parece, de acordo com uma medicina e maneira de pensar tranqülizante (epicúrea ou cristã, por exemplo), sobretudo a felicidade do repouso, da não-perturbação, da saciedade, da unidade enfim alcançada, ou "sabá dos sabás", para dizer como o santo retor Agostinho, ele mesmo um desses homens. - Mas se numa tal natureza a contradição e a guerra atuam como uma atração e estímulo de vida mais -, e se, além dos seus impulsos fortes e inconciliáveis, também foi herdada e cultivada uma autêntica mestria e sutileza na guerra consigo, ou seja, no autodomínio e engano de si: então surgem esses homens espantosamente incompreensíveis e inimagináveis, esses enigmas predestinados à vitória e à sedução, cujos mais belos exemplos são Alcíbiades e César (-aos quais eu gostaria de juntar o primeiro europeu a meu gosto, Frederico II de Hohenstaufen), e, entre os artistas, talvez Leonardo da Vinci. Eles surgem precisamente nas épocas em que avulta aquele tipo mais fraco, que aspira ao repouso: os dois tipos estão relacionados e se originam das mesmas causas."

(Nietzsche, Frederico. Além do Bem e do Mal. Aforismo 200. São Paulo: Companhia das Letras, p. 86s.)

9.8.08

Um resto de bom senso:

Eu troquei o quase nada por muito pouco.

26.7.08

Foda-se ela
Foda-se eu
Fodamo-nos nós
E o futuro
a gente vê amanhã

9.6.08

Sempre mais do mesmo

Não vou dizer que não fiquei contente com essa história da Yeda. Óbvio. Mas... sempre a mesma história. "Ah, o grupo do governo foi pego com a mão na massa"; "combate à corrupção" e tantos outros uivos democráticos. Isso cansa!
Porra, todo mundo faz isso! Melhor: nosso sistema democrático representativo precisa de corrupção para poder funcionar. Isso quase todo o mundo sabe. Para o presidente passar uma lei no Congresso - que é composto, em sua maior parte, pela oposição - é obrigatório comprar as pintas. Não estou apontando ser isso o correto, mas é o instituído. Todo mundo, ao entrar no jogo, precisa se adequar às regras. Caso contrário, só uma revolução pra resolver. E esse não é o caso do Brasil. Pelo menos por enquanto.
Ouvir o Lasier Martins, um dos mais destacados cavaleiros contra-corrupção desta Província de São Pedro, é bucha!É sempre o mesmo papo... e as pessoas, repetindo as mesmas indignações de sempre, permanecem (como eu) com uma tremenda sensação de impotência. O sistema político institucional é um caso perdido. Tá, temos os partidos de esquerda com uma proposta mais progressista, mas esses caras reforçam sempre que o único caminho é o institucional, espaço vedado às pessoas fora dos partidos. A proposta da esquerda, ao meu ver, não muda muito a situação, já que o eleitorado permanece sempre em sua postura passiva, de se mexer só na hora das eleições ou na hora de passeata organizada pelo partido.
No meu pensamento mais idealizado, tirado de exemplos dados por outras realidades, é a organização espontânea e local o caminho mais adequado para dar outro andamento à relação de forças. Organizações locais, com instrumentalização jurídica ou mesmo paramilitar, dependendo da situação, com objetivos primeiros de caráter pontual. Depois, a articulação destes diferentes movimentos em rede, em que o espaço político institucional passa a ser apenas mais um entre os muitos campos de luta possíveis. Esse, se não estou enganado, é o caso boliviano.
Para encerrar: sim, apesar do exposto, votarei para o pt para as próximas eleições para governo do estado. Voto útil, contra possíveis políticas de liberalização do estado, como as da atual fubanga governadora. Segunda coisa, acho que tinha que ter ensino de legislação no colégio.

13.5.08

Toma cuidado, Lu!


Canção de um pastor de cabras teocrítico

Eís-me deitado, doente do intestino -
Os percevejos me devoram.
Lá adiante ainda há luzes e barulhos!
Escuto-os dançarem...

Ela queria, a esta hora,
Escapar até onde estou.
Espero como um cão -
Não vejo sinal dela.

E o sinal-da-cruz quando prometeu?
Como podia ela mentir?
- Ou corre atrás de qualquer um,
Como fizeram minhas cabras?

Onde arranjou o vestido de seda?
Ah, minha orgulhosa!
Haverá outros bodes ainda
Nesse bosque?

- Como torna confuso e envenenado
A espera amorosa!
Assim brota, na noite abafada,
O cogumelo venenoso.

Amor me consome
Como sete males -
Não tenho apetite para nada
Adeus, minhas cebolinhas!

A lua já se pôs no mar,
Cansadas já estão as estrelas,
Cinzento nasce o dia -
Eu bem que morreria.

(Frederico Nietzsche. A Gaia Ciência. Apêndice: Canções do príncipe Vogelfrei. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 302s)