11.4.09
A desregulamentação é anti-liberal
O liberalismo não me traz desconfort0. Ele é o pai de todas as correntes políticas e econômicas modernas. Mesmo a idéia de desregulamentação do liberalismo radical é aceitável. O que trava na minha garganta é a defesa dessa desregulamentação num contexto de monopólio de muitos campos da economia por algumas poucas empresas. Retirar as limitações das grandes corporações econômicas é abrir a jaula dos leões. A defesa do liberalismo radical é razoável para aqueles que estão sob a tutela ou a serviço dos Gerdau ou dos Marinho. Do contrário, pode ser um ato estúpido. As pequenas e médias empresas correm perigo de serem engolidas ou perderem para uma concorrência desleal. Mais ainda, novas empresas ou iniciativas de grupos locais ficam fadadas ao sufocamento. Como montar uma rádio, por exemplo, com o controle das telecomunicações por meia dúzia de empresas midiáticas que obtiveram concessões públicas. Vou me arriscar a dizer que a desregulamentação, num contexto de monopolização de muitos setores da economia por poucos grupos, ainda mais num momento de crise, é uma atitude anti-liberal. Hoje, o que resta a maioria dos profissionais é ter que se empregar como funcionário dessas grandes empresas e se submeter a suas políticas. Que o digam os jornalistas e atores. Se o poderio destas mega-empresas é bastante limitador, mesmo com o controle existente do Estado, como seria se não existisse dito controle. A desregulamentação é o caminho da servidão.
9.4.09
Fé
Economia é religião. A liberdade de mercado quebrou o mundo financeiro. O Estado teve de intervir para restabelecer a economia. E, apesar de todas as evidências, os liberais não perderam a fé nas leis de mercado. Contra fé não há evidências.
28.3.09
O escrachado na história
No link a seguir, a aula de um professor gravada por um aluno. Possivelmente, num cursinho pré-vestibular.
Clique Aqui. O vídeo está no youtube.
O uso do humor, do deboche e da ironia na escrita da história são um deleite para o leitor ou ouvinte. Quem já leu Gilberto Freyre ou os escritos históricos de Marx ou Nietzsche entende o que estou dizendo. Contemporaneamente, por questões comerciais, os professores de cursinho pré-vestibular têm usado deste gênero narrativo para tornar suas aulas agradáveis. O professor de cursinho virou uma espécie de showman para vender seu produto: isso é o efeito do imperativo de mercado. A princípio, não há mal algum nisso, desde que os objetivos do ensinar história não sejam prejudicados. Objetivos estes que são, a meu ver, os de trabalhar conceitos históricos e historicizados e o de criar e refinar o sentido histórico, tal como o descreveu Frederico Nietzsche no seu livro Gaia Ciência, dos participantes da aula.
Vamos à aula do vídeo em questão. O professor é engraçado. Os alunos riem. O assunto da aula é a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Na boca do professor, todos os tópicos referentes a dita participação são motivos de deboche. A atuação da equipe médica no sul da França. A não atuação dos aviões brasileiros. O ataque, ou suposto ataque, de um submarino alemão. Pode-se até pensar que o professor tenha passado do ponto do deboche e chegado ao do escrachamento. Nas palavras dele: "Patético".
Eu ainda não havia feito leitura alguma sobre a participação brasileira na guerra. Por isso, recorri a Wikipedia. Encontrei este artigo aqui. Ao fim do mesmo, há uma relação de obras e outros endereços na rede sobre o assunto. Levanto algumas considerações.
Primeiro, em termos de factualidade, há alguns pontos que o artigo entrou em certo choque com a narrativa do professor. Os bandeides ao qual o professor se referiu foram, segundo o artigo, um socorro aos franceses atingidos pela gripe espanhola. Houve o ataque de um submarino alemão, segundo o artigo. E mesmo que não tivesse acontecido ataque algum, imagine-se a situação. Um monte de brasileiros, saídos de um país tropical, que talvez nunca houvesse pegado em arma, se vê em meio a uma Europa em guerra, correndo o perigo de assédio de submarino alemão. Qualquer movimentação estranha em água poderia ser sinal de perigo. Ou não? Se sim, se não, o que fazer?
Segundo, uma questão epistemológica. A narrativa histórica pretende, em último ponto, averiguar a veracidade de um enunciado ou indicativo histórico. Enunciado ou indício baseados em uma rede provas documentais. Assim, o historiador deve elaborar enunciados significativos ou apresentar indícios a partir da análise de fontes ou da citação e crítica de literatura secundária que já tenha trabalhado com fontes primárias. E o que fez o professor do vídeo senão ignorar essa pré-condição da disciplina histórica e cair no campo do julgamento moral. Para o professor, todos os militares engajados foram patéticos. Aviadores, médicos, soldados rasos, comandantes. Entrando no campo da moral acaba-se com a possibilidade de tentar entender o real-passado. Não houve questões táticas, apenas patetice.
Terceiro, uma questão moral. Putz! Imagina o soldado que lá estava, em plena Europa, quem sabe com frio, quem sabe com fome. Possivelmente, se perguntando o porquê de estar arriscando a vida por uma causa que não era sua. E aí, um professor de história simplesmente diz: patético! Isso é falta de respeito, pô!
Os professores de cursinho têm essa dificuldade diante de si, causada pelo imperativo de mercado: encontrar a linha que separa o humor e a ironia do escrachamento. Isso é muito difícil, principalmente com um público jovem ávido por diversão. Principalmente, devido a tremenda concorrência existente entre os professores nos estabelecimento de cursos pré-vestibulares. Aí que entra a questão para o professor, de se vender ou não ao sistema. Preparar boas aulas, quem sabe até divertidas, sem usar em clichês ou bobagens, ou apelar para imagens escrachadas e não-historicizadas por achar estas as melhores armas no jogo competitivo do mercado. O profissional ético não pode cair na tentação de se deixar levar pelo marketing à qualquer custo.
É um tom muito moralista o meu. Eu sei. Mas é uma pré-requisito profissional mínimo. Tem que ser comentado, explicitado. Se um dia meterem o dedo na minha cara por eu ter incorrido nesse tipo de prática e eu responder, simplesmente, "é a vida!", saibam que eu já virei um cínico. E que perdi o profissionalismo.
Clique Aqui. O vídeo está no youtube.
O uso do humor, do deboche e da ironia na escrita da história são um deleite para o leitor ou ouvinte. Quem já leu Gilberto Freyre ou os escritos históricos de Marx ou Nietzsche entende o que estou dizendo. Contemporaneamente, por questões comerciais, os professores de cursinho pré-vestibular têm usado deste gênero narrativo para tornar suas aulas agradáveis. O professor de cursinho virou uma espécie de showman para vender seu produto: isso é o efeito do imperativo de mercado. A princípio, não há mal algum nisso, desde que os objetivos do ensinar história não sejam prejudicados. Objetivos estes que são, a meu ver, os de trabalhar conceitos históricos e historicizados e o de criar e refinar o sentido histórico, tal como o descreveu Frederico Nietzsche no seu livro Gaia Ciência, dos participantes da aula.
Vamos à aula do vídeo em questão. O professor é engraçado. Os alunos riem. O assunto da aula é a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Na boca do professor, todos os tópicos referentes a dita participação são motivos de deboche. A atuação da equipe médica no sul da França. A não atuação dos aviões brasileiros. O ataque, ou suposto ataque, de um submarino alemão. Pode-se até pensar que o professor tenha passado do ponto do deboche e chegado ao do escrachamento. Nas palavras dele: "Patético".
Eu ainda não havia feito leitura alguma sobre a participação brasileira na guerra. Por isso, recorri a Wikipedia. Encontrei este artigo aqui. Ao fim do mesmo, há uma relação de obras e outros endereços na rede sobre o assunto. Levanto algumas considerações.
Primeiro, em termos de factualidade, há alguns pontos que o artigo entrou em certo choque com a narrativa do professor. Os bandeides ao qual o professor se referiu foram, segundo o artigo, um socorro aos franceses atingidos pela gripe espanhola. Houve o ataque de um submarino alemão, segundo o artigo. E mesmo que não tivesse acontecido ataque algum, imagine-se a situação. Um monte de brasileiros, saídos de um país tropical, que talvez nunca houvesse pegado em arma, se vê em meio a uma Europa em guerra, correndo o perigo de assédio de submarino alemão. Qualquer movimentação estranha em água poderia ser sinal de perigo. Ou não? Se sim, se não, o que fazer?
Segundo, uma questão epistemológica. A narrativa histórica pretende, em último ponto, averiguar a veracidade de um enunciado ou indicativo histórico. Enunciado ou indício baseados em uma rede provas documentais. Assim, o historiador deve elaborar enunciados significativos ou apresentar indícios a partir da análise de fontes ou da citação e crítica de literatura secundária que já tenha trabalhado com fontes primárias. E o que fez o professor do vídeo senão ignorar essa pré-condição da disciplina histórica e cair no campo do julgamento moral. Para o professor, todos os militares engajados foram patéticos. Aviadores, médicos, soldados rasos, comandantes. Entrando no campo da moral acaba-se com a possibilidade de tentar entender o real-passado. Não houve questões táticas, apenas patetice.
Terceiro, uma questão moral. Putz! Imagina o soldado que lá estava, em plena Europa, quem sabe com frio, quem sabe com fome. Possivelmente, se perguntando o porquê de estar arriscando a vida por uma causa que não era sua. E aí, um professor de história simplesmente diz: patético! Isso é falta de respeito, pô!
Os professores de cursinho têm essa dificuldade diante de si, causada pelo imperativo de mercado: encontrar a linha que separa o humor e a ironia do escrachamento. Isso é muito difícil, principalmente com um público jovem ávido por diversão. Principalmente, devido a tremenda concorrência existente entre os professores nos estabelecimento de cursos pré-vestibulares. Aí que entra a questão para o professor, de se vender ou não ao sistema. Preparar boas aulas, quem sabe até divertidas, sem usar em clichês ou bobagens, ou apelar para imagens escrachadas e não-historicizadas por achar estas as melhores armas no jogo competitivo do mercado. O profissional ético não pode cair na tentação de se deixar levar pelo marketing à qualquer custo.
É um tom muito moralista o meu. Eu sei. Mas é uma pré-requisito profissional mínimo. Tem que ser comentado, explicitado. Se um dia meterem o dedo na minha cara por eu ter incorrido nesse tipo de prática e eu responder, simplesmente, "é a vida!", saibam que eu já virei um cínico. E que perdi o profissionalismo.
13.11.08
Mais um puxão de orelha do tio niet na fase positivista
A fé na embriaguez - Os seres de instantes sublimes e arrebatados, que habitualmente, por contraste e devido à própria dissipação de suas forças nervosas, sentem-se miseráveis e inconsolávis, vêem aqueles instantes como o autêntico "Eu", como "si"; e por isso pensam no seu ambiente, sua época, todo o seu mundo, com sentiments de vingança. A embriaguez é a verdadeira vida para eles, o genuíno Eu: em todo o resto vêem adversários e estorvadores da embriaguez, seja esta de natureza moral, intelectual, religiosa ou artística. A estes entusiásticos ébrios a humanidade deve muita coisa ruim: eles são infatigáveis semeadores da insatisfação consigo e com o próximo, do desprezo pela época e o mundo e, sobretudo, do cansaço do mundo. Todo um inferno de criminosos talvez não produzisse este inquietante e prolongado efeito opressivo, corruptor de ar e terra, como faz essa pequena e nobre comunidade de desenfreados, fantasistas e semidoidos, de gênios que não podem controlar-se, e que experimentam prazer consigo apenas quando se perdem totalmente: enquanto o criminoso, com freqüência, dá prova de excelente autodomínio, de abnegação e prudência, e sabe manter esses atributos naqueles que o temem. O céu acima da vida talvez se torne perigoso e sombrio por causa dele, mas o ar permance robusto e severo. - Além de tudo, esses entusiastas propagam a fé na embriaguez, com todas as suas forças, como no que há de vida na vida: uma crença terrível! Tal como agora os selvagens são rapidamente corrompidos e arruinados pela "água ardente", a humanidade como um todo foi corrompida, lenta e radicalmente, pelas aguardentes espirituais dos sentimentos inebriantes, e por aqueles que mantiveram vivo o anseio por eles: talvez ela ainda venha a se arruinar com isso.
(Nietzsche, Frederico. Aurora. Aforismo 50. São Paulo: Companhia das Letras, p. 44s.)
(Nietzsche, Frederico. Aurora. Aforismo 50. São Paulo: Companhia das Letras, p. 44s.)
7.11.08
Ditos memoráveis de Leonardo Vigolo
Sim... diminuir riscos, esse é o lema,
sobre a prova de Antropologia e minha preguiça acadêmica.
Uma melancolia regada à asa,
sobre o ambiente do metrô, em São Paulo.
Um cover brasileiro de uma coisa babaca,
sobre High School Music Brasil
sobre a prova de Antropologia e minha preguiça acadêmica.
Uma melancolia regada à asa,
sobre o ambiente do metrô, em São Paulo.
Um cover brasileiro de uma coisa babaca,
sobre High School Music Brasil
3.11.08
A revelação histórica
No século XVIII, havia a Real Feitoria de Linho-Cânhamo em São Leopoldo, na então Capitania do Rio Grande de São Pedro! A produção de linho-cânhamo era empresa "estatal"!! Mas não deu certo: parece que a escravaria queimou toda a produção!!! Até a última ponta!!!!
30.9.08
Entrevista do Silvio e do Vesgo com o Quico
21.9.08
20.9.08
Sobre o 20 de Setembro
Para ser sincero, nunca me incomodei muito com o tradicionalismo gaúcho. Esse gosto por andar de fantasia de gaúcho ou prenda pelas ruas da nossa urbe durante a semana farroupiha ou bailes dos CTG's; o discurso separacionista; o orgulho das virtudes meridionais em relação ao norte do país, isto é, tudo que está para cima de SC. Até gosto desses hábitos quando aparacem cenas risíveis, como a dos peões de apartamento que vão laçar bezerro nos CTG's. Tudo bem, né? Parece ser bem legal fazer parte de uma tradição inventada na década de 1930, no máximo.
Agora, não consigo tolerar de maneira alguma, em ponto nenhum, aquela musiquinha de nanar chamada Hino Sul-Riograndense. Nem preciso dizer o porquê. Já é do conhecimento de quase todos leitores deste blog - que, por sinal, são poucos... - seu significado mais latente: a glorificação de um dito passado heróico e moral de um povo diferenciado. E botam a criançada para aprender a cantar essa cantiga.
Cara, seria engraçadíssimo se não fosse nossa verdade. Se tudo isso fosse só mais uma historieta antiga de historiador. Mas não é. Aos alunos do ensino fundamental e médio obrigam perder 20 minutos diários para cantá-lo, além dos milhares de trabalhinhos obrigatórios nos quais se devem escrever o texto de cabo a rabo, ao longo dos mais 12 anos escolares. Inclusive nas aulas de educação física, deixava-se de correr ou jogar bola pra copiar esse hineto registrado na contracapa dos livros didáticos.
Caralho! Além de se referir à essa luta entre frações da elite como luta pela liberdade, ainda designa toda população escravizada como sem virtudes. Isto é, bem mais de um terço da população nacional, além de estar na condição de escravizada, ainda por cima não é digna nem de ser tomada enquanto possivelmente moral. É perfeitamente compreensível a produção do texto do hino. Foi escrito em 1935, em ocasião do centenário da Revolta Farroupilha, e adotado pelo Instituto Histórico Geográfico. Essa galera do IHGB, historiadores amadores e muito importantes em termos historiográficos, defensores das idéias raciais e evolutivas próprias de seu tempo.Segundo estes autores, haviam raças distintas e algumas eram mais puras e graduadas que outras. Convém lembrar, o nacional-socialismo do Hitler tomou o poder na Alemanha em 1933. Para aquela época, é compreensível que se pense isso. Mas hoje, num momento em que a situação desfavorável do negro é alvo de críticas e observações cada vez mais pertinentes, cantar o hino ou fazê-lo soar nos diversos espaços, sejam públicos ou privados, me parece, sem tirar nem pôr, uma prática racista. Tão desagradável quanto parte das músicas racistas e homofóbicas da geral do Grêmio.
Querem cantar. Cantem! Só fico imaginando o que pensam os patriótas quando me nego a tomar parte na cantoria.
Agora, não consigo tolerar de maneira alguma, em ponto nenhum, aquela musiquinha de nanar chamada Hino Sul-Riograndense. Nem preciso dizer o porquê. Já é do conhecimento de quase todos leitores deste blog - que, por sinal, são poucos... - seu significado mais latente: a glorificação de um dito passado heróico e moral de um povo diferenciado. E botam a criançada para aprender a cantar essa cantiga.
Cara, seria engraçadíssimo se não fosse nossa verdade. Se tudo isso fosse só mais uma historieta antiga de historiador. Mas não é. Aos alunos do ensino fundamental e médio obrigam perder 20 minutos diários para cantá-lo, além dos milhares de trabalhinhos obrigatórios nos quais se devem escrever o texto de cabo a rabo, ao longo dos mais 12 anos escolares. Inclusive nas aulas de educação física, deixava-se de correr ou jogar bola pra copiar esse hineto registrado na contracapa dos livros didáticos.
Caralho! Além de se referir à essa luta entre frações da elite como luta pela liberdade, ainda designa toda população escravizada como sem virtudes. Isto é, bem mais de um terço da população nacional, além de estar na condição de escravizada, ainda por cima não é digna nem de ser tomada enquanto possivelmente moral. É perfeitamente compreensível a produção do texto do hino. Foi escrito em 1935, em ocasião do centenário da Revolta Farroupilha, e adotado pelo Instituto Histórico Geográfico. Essa galera do IHGB, historiadores amadores e muito importantes em termos historiográficos, defensores das idéias raciais e evolutivas próprias de seu tempo.Segundo estes autores, haviam raças distintas e algumas eram mais puras e graduadas que outras. Convém lembrar, o nacional-socialismo do Hitler tomou o poder na Alemanha em 1933. Para aquela época, é compreensível que se pense isso. Mas hoje, num momento em que a situação desfavorável do negro é alvo de críticas e observações cada vez mais pertinentes, cantar o hino ou fazê-lo soar nos diversos espaços, sejam públicos ou privados, me parece, sem tirar nem pôr, uma prática racista. Tão desagradável quanto parte das músicas racistas e homofóbicas da geral do Grêmio.
Querem cantar. Cantem! Só fico imaginando o que pensam os patriótas quando me nego a tomar parte na cantoria.
2.9.08
Latifundiários, peões, Expointer e RBS
O axioma do Frantz Fanon, também dito pelo Paulo Freire, é sempre bom repetir: o dominado defende a ideologia do dominador.
No Jornal do Almoço dos dois últimos dias, vimos a reportagem sobre a ação do Ministério do Trabalho em proibir os peões de dormir junto aos animais, durante a Expointer. Foi ressaltado na reportagem a tristeza destes trabalhadores, em se verem impedidos de dar boa continuidade aos seus trabalhos. Foram mostradas algumas cenas, da estima dedicada por estes trabalhadores do campo aos animais, das jantas baseadas a boa churrascada e do clima de devoção total à lida do campo. Algo comovente. E não estou sendo sarcástico nem debochado. Algo do tipo: "maldito Estado que se intromete nas livres relações entre os homens".
Até que minha mãe fez seus comentários, enquanto eu apenas mastigava minha comida e ruminava pensamentos senis anti-mídia corporativos. Ela vem do interior, então conhece um pouco da situação. Segunda ela, esses trabalhadores ganham uma miséria, dormem pouco pra caralho, trabalham um monte e só vêem aquela churrascada na boca dos latifundiário donos dos bichos. E, por mais que pareça um paradoxo, ainda defendem os caras. Mas não é de graça.
É certo que boa parte destes trabalhadores deve se emputiar com o trabalho e a situação. Eu sei por conhecimento empírico, pois tenho parentes no interior, como já havia dito. Lá, Legislação Trabalhista é utopia. A galera trabalha o dia todo, do raiar a baixar do sol, sem arrego. Então, pra quem vive todo dia essa situção, uma semana de Expointer não é nada.
Bom, quanto à imprensa corporativa, não quero falar nada. Já está todo mundo cansado de saber do que eu iria falar. A construção da "verdade" é uma questão bem séria. Além disso, a ligação dessa emissora com os poderes instituídos é bem conhecida, especificamente com os poderes provindos do campo. Um exemplo, o cara do Anonymus Gourmet, que é neto do velho Pinheiro Machado, não por acaso nome de uma boa quantidade de ruas no Estado.
E os liberais ainda vêm chamar a Globo de comunista.
Mas chega de blábláblá anti-qualquer coisa. Temos mais o que se fazer do que ficar pensando na rbs
No Jornal do Almoço dos dois últimos dias, vimos a reportagem sobre a ação do Ministério do Trabalho em proibir os peões de dormir junto aos animais, durante a Expointer. Foi ressaltado na reportagem a tristeza destes trabalhadores, em se verem impedidos de dar boa continuidade aos seus trabalhos. Foram mostradas algumas cenas, da estima dedicada por estes trabalhadores do campo aos animais, das jantas baseadas a boa churrascada e do clima de devoção total à lida do campo. Algo comovente. E não estou sendo sarcástico nem debochado. Algo do tipo: "maldito Estado que se intromete nas livres relações entre os homens".
Até que minha mãe fez seus comentários, enquanto eu apenas mastigava minha comida e ruminava pensamentos senis anti-mídia corporativos. Ela vem do interior, então conhece um pouco da situação. Segunda ela, esses trabalhadores ganham uma miséria, dormem pouco pra caralho, trabalham um monte e só vêem aquela churrascada na boca dos latifundiário donos dos bichos. E, por mais que pareça um paradoxo, ainda defendem os caras. Mas não é de graça.
É certo que boa parte destes trabalhadores deve se emputiar com o trabalho e a situação. Eu sei por conhecimento empírico, pois tenho parentes no interior, como já havia dito. Lá, Legislação Trabalhista é utopia. A galera trabalha o dia todo, do raiar a baixar do sol, sem arrego. Então, pra quem vive todo dia essa situção, uma semana de Expointer não é nada.
Bom, quanto à imprensa corporativa, não quero falar nada. Já está todo mundo cansado de saber do que eu iria falar. A construção da "verdade" é uma questão bem séria. Além disso, a ligação dessa emissora com os poderes instituídos é bem conhecida, especificamente com os poderes provindos do campo. Um exemplo, o cara do Anonymus Gourmet, que é neto do velho Pinheiro Machado, não por acaso nome de uma boa quantidade de ruas no Estado.
E os liberais ainda vêm chamar a Globo de comunista.
Mas chega de blábláblá anti-qualquer coisa. Temos mais o que se fazer do que ficar pensando na rbs
26.8.08
Como o vovô niet já dizia
"O homem de uma era de dissolução e de mestiçagem confusa, que leva no corpo uma herança de ascendência múltipla, isto é, impulsos e escalas de valor mais que contraditórios, que lutam entre si e raramente se dão trégua - esse homem das culturas tardias e das luzes veladas será, por via de regra, um homem bem fraco: sua aspiração mais profunda é que um dia tenha fim a guerra que ele é; a felicidade lhe parece, de acordo com uma medicina e maneira de pensar tranqülizante (epicúrea ou cristã, por exemplo), sobretudo a felicidade do repouso, da não-perturbação, da saciedade, da unidade enfim alcançada, ou "sabá dos sabás", para dizer como o santo retor Agostinho, ele mesmo um desses homens. - Mas se numa tal natureza a contradição e a guerra atuam como uma atração e estímulo de vida mais -, e se, além dos seus impulsos fortes e inconciliáveis, também foi herdada e cultivada uma autêntica mestria e sutileza na guerra consigo, ou seja, no autodomínio e engano de si: então surgem esses homens espantosamente incompreensíveis e inimagináveis, esses enigmas predestinados à vitória e à sedução, cujos mais belos exemplos são Alcíbiades e César (-aos quais eu gostaria de juntar o primeiro europeu a meu gosto, Frederico II de Hohenstaufen), e, entre os artistas, talvez Leonardo da Vinci. Eles surgem precisamente nas épocas em que avulta aquele tipo mais fraco, que aspira ao repouso: os dois tipos estão relacionados e se originam das mesmas causas."
(Nietzsche, Frederico. Além do Bem e do Mal. Aforismo 200. São Paulo: Companhia das Letras, p. 86s.)
(Nietzsche, Frederico. Além do Bem e do Mal. Aforismo 200. São Paulo: Companhia das Letras, p. 86s.)
9.8.08
9.6.08
Sempre mais do mesmo
Não vou dizer que não fiquei contente com essa história da Yeda. Óbvio. Mas... sempre a mesma história. "Ah, o grupo do governo foi pego com a mão na massa"; "combate à corrupção" e tantos outros uivos democráticos. Isso cansa!
Porra, todo mundo faz isso! Melhor: nosso sistema democrático representativo precisa de corrupção para poder funcionar. Isso quase todo o mundo sabe. Para o presidente passar uma lei no Congresso - que é composto, em sua maior parte, pela oposição - é obrigatório comprar as pintas. Não estou apontando ser isso o correto, mas é o instituído. Todo mundo, ao entrar no jogo, precisa se adequar às regras. Caso contrário, só uma revolução pra resolver. E esse não é o caso do Brasil. Pelo menos por enquanto.
Ouvir o Lasier Martins, um dos mais destacados cavaleiros contra-corrupção desta Província de São Pedro, é bucha!É sempre o mesmo papo... e as pessoas, repetindo as mesmas indignações de sempre, permanecem (como eu) com uma tremenda sensação de impotência. O sistema político institucional é um caso perdido. Tá, temos os partidos de esquerda com uma proposta mais progressista, mas esses caras reforçam sempre que o único caminho é o institucional, espaço vedado às pessoas fora dos partidos. A proposta da esquerda, ao meu ver, não muda muito a situação, já que o eleitorado permanece sempre em sua postura passiva, de se mexer só na hora das eleições ou na hora de passeata organizada pelo partido.
No meu pensamento mais idealizado, tirado de exemplos dados por outras realidades, é a organização espontânea e local o caminho mais adequado para dar outro andamento à relação de forças. Organizações locais, com instrumentalização jurídica ou mesmo paramilitar, dependendo da situação, com objetivos primeiros de caráter pontual. Depois, a articulação destes diferentes movimentos em rede, em que o espaço político institucional passa a ser apenas mais um entre os muitos campos de luta possíveis. Esse, se não estou enganado, é o caso boliviano.
Para encerrar: sim, apesar do exposto, votarei para o pt para as próximas eleições para governo do estado. Voto útil, contra possíveis políticas de liberalização do estado, como as da atual fubanga governadora. Segunda coisa, acho que tinha que ter ensino de legislação no colégio.
Porra, todo mundo faz isso! Melhor: nosso sistema democrático representativo precisa de corrupção para poder funcionar. Isso quase todo o mundo sabe. Para o presidente passar uma lei no Congresso - que é composto, em sua maior parte, pela oposição - é obrigatório comprar as pintas. Não estou apontando ser isso o correto, mas é o instituído. Todo mundo, ao entrar no jogo, precisa se adequar às regras. Caso contrário, só uma revolução pra resolver. E esse não é o caso do Brasil. Pelo menos por enquanto.
Ouvir o Lasier Martins, um dos mais destacados cavaleiros contra-corrupção desta Província de São Pedro, é bucha!É sempre o mesmo papo... e as pessoas, repetindo as mesmas indignações de sempre, permanecem (como eu) com uma tremenda sensação de impotência. O sistema político institucional é um caso perdido. Tá, temos os partidos de esquerda com uma proposta mais progressista, mas esses caras reforçam sempre que o único caminho é o institucional, espaço vedado às pessoas fora dos partidos. A proposta da esquerda, ao meu ver, não muda muito a situação, já que o eleitorado permanece sempre em sua postura passiva, de se mexer só na hora das eleições ou na hora de passeata organizada pelo partido.
No meu pensamento mais idealizado, tirado de exemplos dados por outras realidades, é a organização espontânea e local o caminho mais adequado para dar outro andamento à relação de forças. Organizações locais, com instrumentalização jurídica ou mesmo paramilitar, dependendo da situação, com objetivos primeiros de caráter pontual. Depois, a articulação destes diferentes movimentos em rede, em que o espaço político institucional passa a ser apenas mais um entre os muitos campos de luta possíveis. Esse, se não estou enganado, é o caso boliviano.
Para encerrar: sim, apesar do exposto, votarei para o pt para as próximas eleições para governo do estado. Voto útil, contra possíveis políticas de liberalização do estado, como as da atual fubanga governadora. Segunda coisa, acho que tinha que ter ensino de legislação no colégio.
21.5.08
13.5.08
Toma cuidado, Lu!
Canção de um pastor de cabras teocrítico
Eís-me deitado, doente do intestino -
Os percevejos me devoram.
Lá adiante ainda há luzes e barulhos!
Escuto-os dançarem...
Ela queria, a esta hora,
Escapar até onde estou.
Espero como um cão -
Não vejo sinal dela.
E o sinal-da-cruz quando prometeu?
Como podia ela mentir?
- Ou corre atrás de qualquer um,
Como fizeram minhas cabras?
Onde arranjou o vestido de seda?
Ah, minha orgulhosa!
Haverá outros bodes ainda
Nesse bosque?
- Como torna confuso e envenenado
A espera amorosa!
Assim brota, na noite abafada,
O cogumelo venenoso.
Amor me consome
Como sete males -
Não tenho apetite para nada
Adeus, minhas cebolinhas!
A lua já se pôs no mar,
Cansadas já estão as estrelas,
Cinzento nasce o dia -
Eu bem que morreria.
(Frederico Nietzsche. A Gaia Ciência. Apêndice: Canções do príncipe Vogelfrei. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 302s)
11.5.08
Trabalho numa repartição pública. Especificamente no setor do arquivo. É muito papel inutilizado. E mesmo, muito papel por mim inutilizado. Parece que tudo que sei sobre a situação rural, social e ecológica do Rio Grande do Sul com o empreendimento das multinacionais do papel não significa nada. Bom, alguma coisa significa, mas não tudo que deveria.
Abaixo, mais uma parte de um texto do Movimento dos Atingidos por Barragens. Clique no excerto para ter acesso ao todo.
Segundo o professor de Biologia, Dr. Paulo Brank, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mais de 90% da celulose das três gigantes multinacionais Stora Enzo, Aracruz, Votorantin, será pasta para celulose para exportação. “O papel será feito no primeiro mundo e as terras esgotadas e a poluição ficarão por aqui. O capital internacional viu que as terras aqui são baratas, as pessoas estão largando suas lidas no campo para arrendar ou vender suas terras”, afrima Brank. O projeto das três empresas é de plantar mais de 1 milhão de hectares de monoculturas de árvores exóticas para alimentar o crescimento infinito do consumo de papel. Brank acredita que se for diminuído o consumo de papel, o que a terra agradeceria, as empresas vão faturar menos e que estas monoculturas estão gerando o aumento do êxodo rural e a insustentabilidade financeira do agricultor ou pecuarista no Uruguai, Chile, Brasil.
Abaixo, mais uma parte de um texto do Movimento dos Atingidos por Barragens. Clique no excerto para ter acesso ao todo.
Segundo o professor de Biologia, Dr. Paulo Brank, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mais de 90% da celulose das três gigantes multinacionais Stora Enzo, Aracruz, Votorantin, será pasta para celulose para exportação. “O papel será feito no primeiro mundo e as terras esgotadas e a poluição ficarão por aqui. O capital internacional viu que as terras aqui são baratas, as pessoas estão largando suas lidas no campo para arrendar ou vender suas terras”, afrima Brank. O projeto das três empresas é de plantar mais de 1 milhão de hectares de monoculturas de árvores exóticas para alimentar o crescimento infinito do consumo de papel. Brank acredita que se for diminuído o consumo de papel, o que a terra agradeceria, as empresas vão faturar menos e que estas monoculturas estão gerando o aumento do êxodo rural e a insustentabilidade financeira do agricultor ou pecuarista no Uruguai, Chile, Brasil.
4.5.08
Cotas
O que eu entendo por raça?
Raça são ônibus cheios de gente majoritariamente negra ou majoritariamente branca. Basta pegar o Menino Deus e depois o Restinga ou o Campo Novo, lá pelas sete horas. O projeto de urbanização de Porto Alegre denota divisão racial.
A população "branca" tem maior tempo de escolaridade que a "negra" e "parda". Tá lá nos estudos do IPEA. É só conferir. Me lembro da propaganda do Banrisul. Só tinha uma negra. Bastante clara. Ao fundo da imagem, onde ela estava, até parecia branca.
O embaixador Alberto da Costa e Silva, um dos maiores entendedores da África no Brasil, diz que não sabemos o quanto temos de africanidade. E o currículo de história da UFRGS só tem cadeiras eletivas de história da África. Quem estuda a situação do negro no Brasil, só sob a ótica do escravo. Só as negociações. Donde essa gente vem parece não ter valor para a narrativa histórica. Não tenho os dados exatos, mas parece que 90% da população estudantil das universidades federais é branca. Vejo ainda poucos negros no Campus do Vale, onde ficam boa parte dos cursos. Raça, pra mim, é isso. Política, história, costumes, economia, educação. Olha que nem falei do público das prisões. Olha que nem falei do medo que tenho quando vejo pessoas trajadas como "manos" se aproximando de mim na noite, pelas ruas do centro e Cidade Baixa. Quero dizer, raça são imaginários sociais também.
Há gente a chamar o Brasil de país racista. Ao mesmo tempo, muitos destes negam a existência de raças. E como vai haver racismo sem haver raças? No sentido biológico, certamente não existe. Mas olha um pouco de tv. Nesta, o mundo parece que é todo branco. Raça é economia, raça é imaginário, raça é estética, raça são políticas de segurança.
Muitos acham racismo a estipulação de cotas raciais. Mas o sistema meritocrático, quase sem querer, também não é racializado? Mérito de filhos de funcionários públicos, médicos, engenheiros. Isso não é contestado por quem contesta as cotas. Fica-se com o "temos que melhorar o sistema de ensino do povo". Mas quem luta pelas cotas não disse o contrário. Nesse ponto há concordância.
A questão das cotas, para mim, não é tanto educacional. É profissional. Ao nível universitário, os formandos são em geral provenientes de classes mais abastadas. Acredito eu, predominantemente brancos. Pois bem, me pergunto se um arquiteto vindo deste grupo socio-econômico vai ter a vontade de entender as especificidades da ocupação territorial e da habitação guarani, que não são semelhantes a nossa. Ou se um médico, trabalhando num posto da periferia, vai ter a sensibilidade para entender e atender a uma mulher negra que recém transou com seu homem e apareceu para consulta sem tomar banho. Este foi um caso contado por uma amiga minha. Ela apenas culpou a mulher pela sua falta de educação. Será que ela estava apta para entender essa mulher? Será que, nesse caso, ela estava apta para atendê-la? Eu imagino que um profissional originado da periferia, alguém que conheça a situação de seus vizinhos, terá maiores condições de entender e atender nos postos das periferias da nossa cidade. Assim como um nutricionista kaingang terá melhores condições para intervir junto aos seus.
As cotas me parecem uma questão muito prática.
Sua implementação é complicadíssima. Seus mecanismos são muito sensíveis. Identidades são coisas tão instáveis, tão difíceis de se determinar.
Os debates também são complicadíssimos. Em geral, se joga com informações hipotéticas. Como no caso deste texto, em alguns momentos. "Os cotistas terão notas baixas". "Os cotistas não terão condições de se manter financeiramente". Essas são questões importantes, as quais devem estar nos cálculos da comissão de implementação das cotas. Mas acredito que não devem impedir a tentativa de implantação.E dizer que quem é contra as cotas é racista também não é certo. Melhor, é uma estupidez.
Este texto é muito apologético. Deve ser combatido. Deve ser deslegitimado, principalmente pelo pouco caso do autor em construí-lo com maior cuidado. Tudo que é fraco dever ser atacado e desmontado.E os pontos francos das cotas devem ser atacados. Só assim poderá ter maiores condições de se manter.
Raça são ônibus cheios de gente majoritariamente negra ou majoritariamente branca. Basta pegar o Menino Deus e depois o Restinga ou o Campo Novo, lá pelas sete horas. O projeto de urbanização de Porto Alegre denota divisão racial.
A população "branca" tem maior tempo de escolaridade que a "negra" e "parda". Tá lá nos estudos do IPEA. É só conferir. Me lembro da propaganda do Banrisul. Só tinha uma negra. Bastante clara. Ao fundo da imagem, onde ela estava, até parecia branca.
O embaixador Alberto da Costa e Silva, um dos maiores entendedores da África no Brasil, diz que não sabemos o quanto temos de africanidade. E o currículo de história da UFRGS só tem cadeiras eletivas de história da África. Quem estuda a situação do negro no Brasil, só sob a ótica do escravo. Só as negociações. Donde essa gente vem parece não ter valor para a narrativa histórica. Não tenho os dados exatos, mas parece que 90% da população estudantil das universidades federais é branca. Vejo ainda poucos negros no Campus do Vale, onde ficam boa parte dos cursos. Raça, pra mim, é isso. Política, história, costumes, economia, educação. Olha que nem falei do público das prisões. Olha que nem falei do medo que tenho quando vejo pessoas trajadas como "manos" se aproximando de mim na noite, pelas ruas do centro e Cidade Baixa. Quero dizer, raça são imaginários sociais também.
Há gente a chamar o Brasil de país racista. Ao mesmo tempo, muitos destes negam a existência de raças. E como vai haver racismo sem haver raças? No sentido biológico, certamente não existe. Mas olha um pouco de tv. Nesta, o mundo parece que é todo branco. Raça é economia, raça é imaginário, raça é estética, raça são políticas de segurança.
Muitos acham racismo a estipulação de cotas raciais. Mas o sistema meritocrático, quase sem querer, também não é racializado? Mérito de filhos de funcionários públicos, médicos, engenheiros. Isso não é contestado por quem contesta as cotas. Fica-se com o "temos que melhorar o sistema de ensino do povo". Mas quem luta pelas cotas não disse o contrário. Nesse ponto há concordância.
A questão das cotas, para mim, não é tanto educacional. É profissional. Ao nível universitário, os formandos são em geral provenientes de classes mais abastadas. Acredito eu, predominantemente brancos. Pois bem, me pergunto se um arquiteto vindo deste grupo socio-econômico vai ter a vontade de entender as especificidades da ocupação territorial e da habitação guarani, que não são semelhantes a nossa. Ou se um médico, trabalhando num posto da periferia, vai ter a sensibilidade para entender e atender a uma mulher negra que recém transou com seu homem e apareceu para consulta sem tomar banho. Este foi um caso contado por uma amiga minha. Ela apenas culpou a mulher pela sua falta de educação. Será que ela estava apta para entender essa mulher? Será que, nesse caso, ela estava apta para atendê-la? Eu imagino que um profissional originado da periferia, alguém que conheça a situação de seus vizinhos, terá maiores condições de entender e atender nos postos das periferias da nossa cidade. Assim como um nutricionista kaingang terá melhores condições para intervir junto aos seus.
As cotas me parecem uma questão muito prática.
Sua implementação é complicadíssima. Seus mecanismos são muito sensíveis. Identidades são coisas tão instáveis, tão difíceis de se determinar.
Os debates também são complicadíssimos. Em geral, se joga com informações hipotéticas. Como no caso deste texto, em alguns momentos. "Os cotistas terão notas baixas". "Os cotistas não terão condições de se manter financeiramente". Essas são questões importantes, as quais devem estar nos cálculos da comissão de implementação das cotas. Mas acredito que não devem impedir a tentativa de implantação.E dizer que quem é contra as cotas é racista também não é certo. Melhor, é uma estupidez.
Este texto é muito apologético. Deve ser combatido. Deve ser deslegitimado, principalmente pelo pouco caso do autor em construí-lo com maior cuidado. Tudo que é fraco dever ser atacado e desmontado.E os pontos francos das cotas devem ser atacados. Só assim poderá ter maiores condições de se manter.
25.3.08
Texto muito interessante sobre o modelo energético brasileiro, aqui, encontrado no endereço do Movimento dos Atingidos por Barragem.
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