22.10.09

Carne fresca

A academia é um campo social como qualquer outro. Disputas, intrigas, hierarquias; mas também solidariedades, amizades e camaradagem. E me parece que as cenas mais engraçadas ficam no campo das ciências humanas . Mesmo estudando as relações sociais de outros povos e outros tempos com muita acuidade (ou pretensa acuidade), seus membros (dentre os quais me incluo) não conseguem perceber as relações de poder, as imposições de gosto e opinião, o lustrar constante da estrutura hierárquica. Exatamente aquilo que encontram em sua pesquisa. E eu posso tomar uma postura menos inocente: talvez os jogadores do campo da academia percebam muito bem as relações de poder, a tal ponto que as utilizam a seu favor.

Posso talvez resumir assim a estrutura do jogo:

{professor doutor > doutor > mestre > graduando veterano > graduando novato (o "bixo", que lembra algo de "o selvagem", o "sem-cultura")} > o resto do mundo;

assim como:

gestos, opiniões, gostos do superior > meus gestos, opiniões, gostos > gestos, opiniões, gostos dos inferiores.

É um esquema bem grosseiro, claro. Mas, em linhas gerais, não me parece equivocado.

Evidentemente, não são todos os membros que se enquadram no esquema. Mas ele, o esquema, é generalizado; é empregado e reiterado pela maioria daqueles que ocupam as posições superiores; é aceito e legitimado por aqueles que estão fora do campo e, principalmente, por aqueles que recém entraram. Em suma, os "bixos" são a carne fresca dos doutores, mestres e veteranos.

3 comentários:

Eu mesmo disse...

Triste verdade.

Rodrigo Cardia disse...

Triste verdade.²

Muito bom o post!

nome: tecnocaos disse...

Cara, muito sóbrio esse teu post. Mas, o que me irrita é que a maioria dos nossos colegas reafirma e defende essa estrutura, eles repetirão os hábitos de nossos mestres, mesmo que fiquem criticando eles o tempo todo.

Enfim, é necessário dançar conforme a valsa, mas você ao menos pode perceber a dança e tentar fazer alguma coisa.

O que me irrita mais ainda, é a pretensa superioridade como nos pensamos. Os engenheiros, os empresários, os biólogos e matemáticos são sempre vistos como pessoas tão burras, que não enxergam a limpidez dos nossos (confusos) argumentos. Vou montar uma banquinha de Semancol no nosso IFCH.